A proposta do Presidente João Lourenço para reforçar a capacidade financeira da AUDA-NEPAD merece ser analisada para além do discurso diplomático. Ela toca numa questão fundamental: quem deve financiar o desenvolvimento de África? Durante décadas, o continente africano habituou-se a olhar para fora sempre que precisava de financiar grandes projectos. Mas um continente que pretende controlar o seu próprio destino precisa, antes de tudo, de fortalecer a capacidade de financiar as suas próprias instituições, projectos e prioridades.
Malundo Kudiqueba
Não existe verdadeira autonomia política sem autonomia financeira.
A AUDA-NEPAD nasceu precisamente de uma ideia poderosa: África deve assumir maior responsabilidade pelo seu próprio desenvolvimento. Vinte e cinco anos depois, essa ideia continua actual.
Mas há uma pergunta inevitável: de que serve criar instituições continentais ambiciosas se depois não existem recursos suficientes para executar as suas decisões?
África não sofre apenas de falta de recursos. Sofre também de falta de coordenação, execução e capacidade institucional.
O desafio agora é transformar contribuições financeiras em resultados visíveis.
Infra-estruturas, industrialização, agricultura, saúde, energia, tecnologia e integração regional não podem continuar a ser apenas capítulos de documentos oficiais. Precisam de sair dos relatórios e chegar às comunidades.
O exemplo do Corredor do Lobito demonstra que grandes projectos africanos podem ligar países, facilitar o comércio, criar cadeias de valor e transformar geografias económicas.
Mas corredores económicos precisam de mais do que estradas e caminhos-de-ferro. Precisam de indústria, empresas, financiamento, trabalhadores qualificados e políticas que permitam aos africanos participar verdadeiramente na riqueza que esses corredores produzem.
Angola, ao defender o reforço da AUDA-NEPAD e ao apoiar financeiramente a instituição, pode também assumir uma responsabilidade maior: ajudar a transformar Angola numa plataforma de pensamento, investimento e execução para o desenvolvimento africano.
A proposta de estabelecer uma representação da AUDA-NEPAD em Angola pode ser uma oportunidade estratégica.
África não precisa apenas de mais instituições. Precisa de instituições que funcionem.
E esta deve ser a nova ambição: menos discursos, mais execução; menos dependência, mais capacidade; menos promessas, mais resultados.
Porque o futuro de África não pode continuar a ser financiado apenas pelos outros. África precisa começar a financiar, organizar e construir o seu próprio futuro.
Birmingham, 04 de Outubro de 2026
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