A POLÍTICA NÃO TEM RELAÇÃO COM A MORAL

Durão barroso

Malundo Kudiqueba

Maquiavel compreendeu que a política não funciona apenas com boas intenções. Governar exige estratégia, cálculo, alianças e capacidade de lidar com interesses contraditórios. Mas compreender essa realidade não significa necessariamente justificá-la. O verdadeiro perigo começa quando a necessidade política se transforma numa desculpa permanente para abandonar valores. A estratégia pode explicar uma decisão, mas não apaga as suas consequências.

Há políticos que falam de ética quando estão na oposição e descobrem a “realidade política” quando chegam ao poder. Criticam ontem aquilo que defendem hoje, condenam nos adversários aquilo que toleram nos aliados e transformam a coerência numa peça decorativa. Na política, a memória do cidadão é longa, mesmo quando a memória do político é curta.

Também existe uma sociedade que, muitas vezes, recompensa este comportamento. Exigimos honestidade dos adversários, mas fechamos os olhos quando alguém do nosso lado comete os mesmos erros. Defendemos princípios enquanto eles nos beneficiam e relativizamo-los quando deixam de ser convenientes. A hipocrisia política começa muitas vezes onde termina a nossa capacidade de criticar os nossos próprios aliados.

Uma política sem moral pode tornar-se eficiente, mas dificilmente será legítima aos olhos de uma sociedade que procura justiça, dignidade e confiança. O poder pode conquistar eleições, controlar instituições e construir alianças, mas não consegue apagar indefinidamente a percepção pública das suas escolhas. O poder pode impor silêncio, mas não consegue obrigar a história a esquecer.

Talvez a grande lição de Maquiavel não seja abandonar a moral, mas compreender como o poder realmente funciona. Conhecer os mecanismos da política é necessário para não sermos ingénuos; preservar princípios é necessário para não nos tornarmos aquilo que criticamos. Quem entra na política sem estratégia pode perder o poder; quem entra sem princípios pode perder-se a si próprio.

A política precisa de realismo, mas também precisa de limites. Porque governar não é apenas conquistar ou conservar poder: é decidir sobre a vida de milhões de pessoas. O poder revela quem somos quando já não precisamos de fingir quem somos.

Birmingham, 25 de Setembro de 2026

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