Em Angola, é comum responsabilizar os políticos por quase todos os problemas do país. Governo, oposição, deputados, dirigentes e partidos são frequentemente apresentados como os principais responsáveis pelo nosso atraso. Mas existe uma pergunta que raramente fazemos: e qual é a responsabilidade da própria sociedade?
Uma sociedade não é apenas espectadora da política. É também parte do processo político, económico e social.
O problema de Angola não pode ser reduzido ao Palácio Presidencial, à Assembleia Nacional ou às sedes dos partidos. Está também nas nossas comunidades, nas nossas instituições, nas nossas empresas, nas nossas universidades e nas nossas relações quotidianas.
Não podemos exigir uma sociedade melhor enquanto alimentamos comportamentos que impedem essa mesma sociedade de melhorar.
Quando transformamos qualquer divergência numa guerra pessoal, destruímos a possibilidade de diálogo. Quando recusamos ouvir quem pensa diferente, transformamos a diferença numa ameaça. Quando defendemos o nosso grupo mesmo quando está errado e atacamos o outro mesmo quando tem razão, deixamos de procurar soluções para começar a procurar vencedores.
E Angola não precisa de vencedores de discussões. Precisa de vencedores do desenvolvimento.
É possível criticar o Governo sem odiar Angola. É possível apoiar a oposição sem considerar inimigo quem governa. É possível defender uma posição política e, ao mesmo tempo, reconhecer que o adversário pode ter uma boa ideia.
Discordar não é destruir. Criticar não é odiar. E patriotismo não é desejar o fracasso de quem está no poder.
Uma sociedade democrática precisa de cidadãos capazes de fiscalizar, questionar e participar, mas também de reconhecer aquilo que é positivo, independentemente de quem o faça.
O futuro de Angola não será construído apenas pelos políticos. Será construído por professores, empresários, trabalhadores, jornalistas, académicos, jovens, organizações da sociedade civil e pela diáspora.
Não podemos esperar que Angola mude se continuarmos a reproduzir os mesmos comportamentos que criticamos nos outros.
O país precisa de instituições mais fortes, mas também de cidadãos mais responsáveis. Precisa de competição política, mas também de cooperação nacional. Precisa de crítica, mas igualmente de propostas.
No fim, a pergunta talvez não seja apenas quem é culpado pelo problema de Angola.
A verdadeira pergunta é: que tipo de sociedade estamos dispostos a construir para a Angola que queremos deixar às próximas gerações?
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