Angola não tem donos da inteligência, nem o conhecimento é propriedade privada de ninguém. Quem exige rigor aos outros tem, antes de tudo, a obrigação de ser rigoroso consigo próprio. O verdadeiro intelectual não precisa de diminuir os outros para provar que é superior, porque a sua competência fala por si. Desqualificar, minimizar ou tratar os outros como intelectualmente inferiores não é demonstração de grandeza — é, muitas vezes, apenas insegurança disfarçada de autoridade. Ninguém se torna mais inteligente porque faz os outros parecerem menos inteligentes.
Malundo Kudiqueba
O conhecimento não é um trono; é uma responsabilidade. E quem ocupa espaço no debate público deve compreender que autoridade intelectual não significa infalibilidade, muito menos licença para humilhar ou silenciar quem pensa de forma diferente.
Angola precisa de intelectuais que elevem o debate, não de intelectuais que transformem o debate numa competição de egos. A crítica é saudável quando ilumina; torna-se arrogância quando serve apenas para apagar os outros.
Professor pode ser título. Intelectual pode ser estatuto. Mas respeito, humildade e rigor são conquistas.
E fica a pergunta: se é preciso diminuir os outros para parecer grande, quão grande é realmente a própria inteligência?
Discordo frontalmente da afirmação do professor Rui Verde de que o MPLA não tem intelectuais. Respeito o direito à opinião, mas uma afirmação dessa natureza exige rigor, critérios e fundamentação técnica. Afinal, antes de declarar que um partido “não tem intelectuais”, seria necessário explicar o que entende por intelectual e quais são os critérios utilizados para chegar a essa conclusão. Sem definição, a afirmação transforma-se apenas numa provocação.
O que é, então, um intelectual para o professor Rui Verde? É alguém com formação académica? Um investigador? Um professor universitário? Um escritor? Um pensador? Um cientista? Um especialista numa determinada área? Ou será intelectual apenas aquele que pensa politicamente de determinada maneira? Sem critérios objectivos, qualquer classificação torna-se arbitrária.
Angola não se constrói exclusivamente com intelectuais. Um país precisa de professores, cientistas, empresários, camponeses, trabalhadores, técnicos, artistas, engenheiros, médicos, juristas, militares, empreendedores e cidadãos comuns. A inteligência de uma nação não está concentrada numa elite académica ou política. Um país não se governa numa sala cheia de intelectuais; governa-se com trabalho e resultados.
A afirmação torna-se ainda mais ambígua porque Rui Verde fala do MPLA, mas não esclarece, com a mesma contundência, se considera que a UNITA tem intelectuais. Essa omissão permite uma interpretação política inevitável: a de que uns seriam intelectuais e outros não. Se essa não foi a intenção, então deveria tê-la esclarecido. Quando se deixa uma comparação no ar, o silêncio também comunica.
É falso, portanto, concluir que o MPLA não possui intelectuais. O partido reúne, como qualquer grande organização política, pessoas com diferentes níveis de formação, conhecimento e capacidade intelectual. Pode-se criticar as suas políticas, dirigentes, decisões e desempenho governativo, mas transformar uma preferência política numa sentença sobre a capacidade intelectual de todos os seus membros é intelectualmente insustentável. Criticar ideias é legítimo; distribuir certificados de inteligência política é outra coisa.
Também não seria correcto afirmar que a UNITA não possui intelectuais. Existem quadros, académicos e pensadores em diferentes espaços políticos angolanos. O debate sério não deve ser uma competição para decidir qual partido monopoliza a inteligência nacional. Angola não tem donos da inteligência.
Respeito a opinião de Rui Verde, mas considero a sua afirmação carregada de sentido antagónico e potencialmente provocador. Um intelectual deve precisamente evitar generalizações sem critérios. Quem exige rigor aos outros deve começar por aplicar rigor às próprias palavras.
Angola precisa menos de guerras sobre quem é intelectual e mais de intelectuais capazes de ajudar a resolver os problemas reais do país.
Birmingham, 02 de Setembro de 2026
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