No espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), onde coexistem realidades económicas distintas e trajectórias políticas diversas, uma questão impõe-se cada vez mais no debate público: qual é o país onde os políticos acumulam maiores fortunas? A resposta, ainda que desconfortável para muitos, tende a apontar para Angola.
Malundo Kudiqueba
Nas últimas décadas, Angola registou um crescimento económico significativo, impulsionado sobretudo pelas receitas do petróleo. Contudo, esse crescimento não se traduziu de forma equitativa para a maioria da população. Pelo contrário, consolidou-se uma elite política e económica com acesso privilegiado aos recursos do Estado.
Em Angola, o poder político não raras vezes transforma-se em poder financeiro.
A relação entre política e negócios tornou-se, ao longo dos anos, uma característica estrutural do sistema. Sectores estratégicos como o petróleo, a construção e a banca estiveram frequentemente ligados a figuras politicamente influentes.
Onde há petróleo e pouca transparência, há fortunas que crescem na sombra.
Comparativamente, países como Portugal apresentam mecanismos de controlo mais robustos, com instituições que, embora imperfeitas, funcionam como travão a excessos. No Brasil, apesar de escândalos de corrupção amplamente divulgados, a dimensão da economia dilui a concentração extrema de riqueza política.
A diferença não está apenas na riqueza, mas na forma como ela é escrutinada.
Em Angola, a ausência histórica de fiscalização eficaz e a fragilidade das instituições favoreceram a acumulação de patrimónios elevados por parte de determinadas figuras políticas.
Quando o Estado é fraco, os interesses privados tornam-se gigantes.
Importa, no entanto, sublinhar que nem todos os políticos angolanos são ricos, nem toda a riqueza é necessariamente ilícita. O problema central reside na falta de transparência e na dificuldade em separar o interesse público do interesse privado.
O verdadeiro escândalo não é haver políticos ricos, mas não se saber como ficaram ricos.
Outros países da CPLP, como Moçambique ou Guiné-Bissau, enfrentam desafios semelhantes, embora em menor escala. Já em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, a dimensão das economias e o escrutínio público tendem a limitar a formação de grandes fortunas políticas.
A dimensão da economia pode esconder ou expor a riqueza — mas nunca a justifica.
O debate sobre a riqueza dos políticos não deve ser reduzido a uma questão de inveja social ou retórica populista. Trata-se, antes, de uma questão de justiça, equidade e credibilidade institucional.
Sem transparência, não há confiança; sem confiança, não há futuro.
Angola continua a ter um potencial enorme, com recursos naturais abundantes e uma população jovem. No entanto, o verdadeiro desafio está na construção de instituições fortes, capazes de garantir que a riqueza do país beneficie todos os cidadãos, e não apenas uma minoria.
No contexto da CPLP, Angola surge frequentemente como um caso emblemático de crescimento económico acompanhado por desigualdade acentuada. Reconhecer este facto não é um ataque, mas um passo necessário para a mudança.
O futuro do país dependerá da capacidade de transformar riqueza em desenvolvimento inclusivo. Caso contrário, continuará a ser lembrado não apenas pelo seu potencial, mas também pelas oportunidades perdidas.
Birmingham, 31 de Maio de 2025.
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