RADAR LUSÓFONO
Adalberto Costa Júnior acusa Carlos César, Paulo Portas e José Luís Arnaut de terem feito “fretes” enquanto observadores nas eleições de 2022 em Angola. As declarações foram feitas numa entrevista concedida à Rádio Observador, em Lisboa. Convidamos os observadores portugueses e depois acusamo-los de fazerem fretes. Como somos incoerentes, queremos que regressem para as eleições de 2027 para depois acusá-los novamente. Alguns políticos assemelham-se a jogadores de futebol. No futebol, alguns jogadores culpam os árbitros quando perdem um jogo e, na política, alguns políticos africanos culpam os observadores internacionais quando perdem uma eleição.
Uma acusação grave não pode sustentar-se apenas em insinuações e, quando um líder político afirma que observadores portugueses foram a Angola “fazer fretes”, a primeira pergunta que se impõe não é política, mas factual: onde estão as provas? Adalberto Costa Júnior deve responder perante a opinião pública angolana e portuguesa, porque não se trata de um detalhe político, mas de uma exigência democrática.
Malundo Kudiqueba
As palavras utilizadas pelo presidente da UNITA não foram inocentes nem politicamente neutras. A expressão “fazer fretes” transporta uma carga negativa evidente. Sugere favorecimento, alinhamento de interesses ou falta de independência. Quando aplicada a observadores internacionais, a expressão tem potencial para colocar em causa a credibilidade e a reputação daqueles que desempenharam essa missão.
Entre os nomes portugueses associados à observação das eleições gerais angolanas de 2022 encontram-se Carlos César, Paulo Portas e José Luís Arnaut. São figuras amplamente conhecidas da vida pública portuguesa, com carreiras políticas e institucionais construídas ao longo de décadas.
É precisamente por isso que uma afirmação desta natureza não pode ficar suspensa no ar, entre a insinuação e a ambiguidade.
Se Adalberto Costa Júnior dispõe de factos, documentos, testemunhos ou quaisquer elementos que sustentem a sua crítica, então tem o dever político e moral de os apresentar. Não apenas por respeito aos cidadãos, mas também por respeito à gravidade daquilo que está a sugerir.
Se, pelo contrário, não possui elementos concretos capazes de demonstrar que aqueles observadores actuaram de forma incompatível com a sua missão, então a opinião pública tem igualmente o direito de saber se a expressão foi um exagero político.
A democracia não se fortalece com suspeitas vagas. Fortalece-se com factos.
A história demonstra que acusações sem prova podem destruir reputações construídas ao longo de uma vida inteira. Basta uma frase. Basta uma insinuação. Basta uma suspeita lançada num microfone para que a dúvida se instale e continue a circular muito depois de esquecida a ausência de provas.
É por isso que os padrões de responsabilidade devem ser mais elevados quando quem fala ocupa uma posição de liderança política.
Ninguém está acima da crítica. Nenhum observador internacional deve estar imune ao escrutínio. Nenhum relatório eleitoral deve ser tratado como verdade absoluta. Mas existe uma diferença fundamental entre questionar conclusões e questionar a integridade pessoal de quem as produziu.
Essa diferença não pode ser ignorada.
Quando um dirigente político sugere que observadores estrangeiros não actuaram de forma independente, está a tocar num dos pilares da credibilidade dos processos eleitorais modernos. Está a lançar uma sombra sobre instituições e pessoas cuja função consiste precisamente em reforçar a confiança pública.
Por isso, a questão permanece simples e directa.
Que factos concretos sustentam a afirmação?
Que elementos permitem concluir que Carlos César, Paulo Portas ou José Luís Arnaut não exerceram as suas funções com independência?
Sem respostas claras a estas perguntas, a polémica continuará a alimentar-se de interpretações, suspeitas e leituras subjectivas.
Num Estado democrático, as palavras têm consequências. E quanto mais grave for a acusação, maior deve ser a obrigação de a demonstrar. Porque a credibilidade da denúncia depende sempre da força da prova. Sem prova, resta apenas a acusação. E uma acusação sem prova dificilmente serve a verdade ou a democracia.
Birmingham, 30 de Maio de 2026
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