O maior problema de Angola não é a pobreza

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Malundo Kudiqueba

Durante anos, fomos levados a acreditar que todos os nossos problemas derivam da escassez: falta de dinheiro, de emprego, de infra-estruturas. E, de facto, essas carências existem e são reais. Mas há algo mais profundo que impede qualquer progresso consistente: uma mentalidade onde o interesse individual se sobrepõe sistematicamente ao bem colectivo. Onde ajudar o próximo é visto como fraqueza, e prejudicar o outro, se trouxer benefício pessoal, é encarado como inteligência.

A maldade de que falamos não é apenas aquela evidente, feita de actos extremos. É também a pequena maldade diária, quase invisível, que se manifesta na indiferença, no oportunismo, na inveja, na falta de empatia. Está presente quando alguém prefere ver o outro cair em vez de estender a mão. Quando se sabota, se difama ou se bloqueia o progresso alheio por puro egoísmo. Quando o sucesso de um é encarado como ameaça e não como inspiração.

Criou-se, ao longo do tempo, uma cultura de sobrevivência onde “cada um por si” se tornou regra. E embora essa postura possa ter sido moldada por contextos difíceis, a sua perpetuação apenas agrava os problemas. Uma sociedade não se constrói com desconfiança permanente nem com competição destrutiva. Constrói-se com cooperação, com sentido de comunidade e com valores partilhados.

Outro aspecto preocupante é a normalização deste comportamento. O errado deixou de chocar. Pequenos actos de injustiça são relativizados, grandes falhas de carácter são desculpadas, e quem tenta agir de forma correcta muitas vezes é ridicularizado. Esta inversão de valores cria um ambiente onde a maldade não só cresce, como é recompensada.

É importante compreender que nenhum país se desenvolve apenas com riqueza material. Sem uma base ética sólida, qualquer crescimento é frágil e desigual. Pode haver dinheiro, pode haver projectos, pode haver avanços, mas sem confiança social e sem integridade colectiva, tudo se torna instável. A verdadeira riqueza de uma nação está no carácter do seu povo.

Isto não significa ignorar a pobreza ou minimizar o seu impacto. Significa, sim, reconhecer que combater apenas os sintomas sem tratar a causa é um erro. Podemos construir escolas, hospitais, estradas e devemos fazê-lo mas se não formarmos cidadãos com valores, consciência e responsabilidade, continuaremos a repetir os mesmos ciclos.

A mudança que Angola precisa não é apenas económica ou política, é profundamente moral e cultural. Começa nas pequenas atitudes, nas escolhas individuais, na forma como cada um decide agir quando ninguém está a ver. Começa na educação, na família, no exemplo que se dá e no tipo de sociedade que se decide construir.

Enquanto não enfrentarmos esta realidade com honestidade, continuaremos a apontar para a pobreza como o maior inimigo, ignorando o verdadeiro problema que se esconde dentro de nós. Porque, no fim, um país pode superar a pobreza mas dificilmente prospera quando a maldade se torna parte da sua identidade colectiva.

Livro recomendado: Outsiders — Howard Becker : O desvio social e construção do “mal”

Birmingham, 14 de Maio de 2026

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