Para os críticos da bicefalia no MPLA

JES JLO PRESIDENTE ANGOLA

A memória selectiva tem sido um dos maiores problemas neste debate. Muitos dos que hoje criticam parecem esquecer que o próprio discurso político do MPLA já passou por evoluções significativas ao longo do tempo. Houve um momento em que se afirmava com convicção: “o MPLA é o povo e o povo é o MPLA”. Mais tarde, esse pensamento evoluiu para uma visão mais selectiva: “só é do MPLA quem merece, não quem quer”. Esta transformação não foi acidental foi uma resposta às exigências de um novo contexto político e social.

A política não é uma fotografia, é um filme em constante movimento. E nesse movimento, posições são revistas, estratégias são ajustadas e conceitos são redefinidos. Criticar alguém por evoluir sem analisar o contexto dessa mudança é reduzir a complexidade da política a um julgamento superficial.

No caso da bicefalia, importa compreender que o cenário político de ontem não é o mesmo de hoje. As necessidades do partido, os desafios do país e a dinâmica interna mudaram. Aquilo que ontem poderia parecer inadequado, hoje pode ser visto como solução. Não se trata necessariamente de contradição, mas de adaptação.

Confundir evolução com incoerência é um erro que empobrece o debate político. As sociedades crescem quando os seus líderes e membros são capazes de rever posições à luz de novas realidades. Permanecer preso ao passado, apenas para manter uma aparência de coerência, pode ser mais prejudicial do que mudar com consciência.

Ju Martins, nas suas declarações, foi particularmente claro e direto ao abordar esta questão. A sua análise da bicefalia não se limitou a uma posição ideológica rígida, mas procurou enquadrar o tema dentro do contexto actual. Foi, como se diz, cirúrgico. E é precisamente esse tipo de abordagem que falta em muitos debates menos emoção e mais racionalidade.

Não há maturidade política sem capacidade de revisão e adaptação. Aqueles que hoje defendem a bicefalia podem estar simplesmente a reconhecer que o contexto mudou e que novas soluções são necessárias. Isso não os torna menos credíveis, mas sim mais conscientes da realidade.

Além disso, é importante reconhecer que nem todos os que mudam de posição o fazem por conveniência. Muitos fazem-no por reflexão, experiência acumulada e contacto directo com os desafios reais da governação e da vida partidária. A crítica fácil ignora este percurso e reduz tudo a uma narrativa de conveniência.

A coerência absoluta é um mito; o que importa é a coerência com a realidade. E a realidade, como sabemos, está em constante transformação.

Por isso, antes de apontar o dedo, talvez seja mais útil fazer uma reflexão mais profunda: será que o problema está em quem mudou de posição, ou em quem se recusa a aceitar que o mundo mudou? A política exige leitura do tempo, capacidade de adaptação e coragem para ajustar o rumo quando necessário.

A vida não é estática e a política também não deveria ser.

Este post já foi lido 946 vezes.

Ajude a divulgar o Fama e Poder - Partilhe este artigo

Related posts

Leave a Comment