Se África falhar a Europa não terá futuro

France president fama poder

Malundo Kudiqueba

Macron percebeu aquilo que muitos políticos europeus ainda se recusam a admitir publicamente. África deixou de ser apenas um espaço de influência colonial ou um reservatório de matérias-primas. África tornou-se o centro da disputa global pelo futuro. Quem dominar as relações estratégicas com África terá peso político, económico e demográfico nas próximas décadas. A Europa sabe disso. A China sabe disso. A Rússia sabe disso. Os Estados Unidos também sabem. O problema é que a Europa acordou tarde.

A declaração de Macron revela medo, pragmatismo e necessidade. Medo do colapso migratório, medo da instabilidade regional e medo de perder influência para outras potências. A Europa envelhece rapidamente, enquanto África representa a juventude do mundo. A economia europeia precisa de mercados africanos, de recursos africanos e até da força humana africana. Sem África, a Europa corre o risco de se transformar num continente cansado, sem energia e sem relevância global.

Mas existe uma contradição evidente no discurso europeu. Os mesmos países que hoje falam de parceria com África foram, durante décadas, cúmplices de sistemas políticos corruptos, manipulações eleitorais e dependência económica. Muitos governos africanos sobreviveram graças ao silêncio conveniente das potências ocidentais. Em vários casos, a presença de observadores internacionais não impediu fraudes; serviu para legitimar processos já controlados. A democracia transformou-se, por vezes, num espetáculo diplomático para satisfazer interesses externos.

Macron tenta apresentar-se como um novo rosto da relação Europa-África. Quer romper com a imagem clássica da Françafrique e construir uma narrativa de respeito mútuo. Contudo, muitos africanos continuam desconfiados. As feridas históricas permanecem abertas. Não basta visitar capitais africanas, fazer discursos emocionados ou falar de juventude africana. África já não aceita ser tratada como um aluno político da Europa. O continente exige soberania, respeito e relações equilibradas.

Ao mesmo tempo, os líderes africanos também precisam abandonar o discurso permanente de vitimização. A colonização destruiu muito, mas não pode continuar a servir de desculpa eterna para má governação, corrupção e incapacidade institucional. O futuro de África dependerá, acima de tudo, da coragem das suas próprias elites políticas e económicas. Nenhuma potência estrangeira desenvolverá África por altruísmo.

A frase de Emmanuel Macron deve ser entendida como um alerta histórico. Quando ele diz que a Europa não terá hipóteses se África falhar, está a reconhecer que os destinos dos dois continentes estão ligados de forma irreversível. A estabilidade europeia dependerá da estabilidade africana. A prosperidade europeia dependerá da prosperidade africana. E talvez, pela primeira vez em muitos anos, um líder europeu tenha admitido publicamente que a Europa precisa de África muito mais do que gosta de admitir.

Birmingham, 11 de Maio de 2026

Este post já foi lido 847 vezes.

Ajude a divulgar o Fama e Poder - Partilhe este artigo

Related posts

Leave a Comment