Luana Piovani e o apartheid não legalizado na Bahia e no Brasil

Ade Zeus

Malundo Kudiqueba

A Bahia é, historicamente, um dos territórios mais negros do Brasil. Culturalmente, espiritualmente e demograficamente, a presença africana é dominante. No entanto, essa maioria desaparece quando se sobe aos andares superiores do poder político, económico e institucional. Como pode uma maioria ser sistematicamente excluída da representação?

Não se trata de uma ausência casual. Trata-se de um padrão estrutural. Um padrão que muitos já começam a comparar, ainda que com especificidades próprias, a um sistema de exclusão que lembra o apartheid. Não um apartheid legalizado, como na África do Sul do século XX, mas um apartheid social, económico e simbólico mais subtil, mas não menos eficaz.

Na Bahia, como no resto do Brasil, a miscigenação é frequentemente usada como argumento para negar o racismo. “Somos todos misturados”, dizem. Mas essa mistura não se traduz em igualdade de oportunidades. Pelo contrário: mascara desigualdades profundas. O Brasil conseguiu a proeza de ser, simultaneamente, um dos países mais miscigenados do mundo e um dos mais racialmente desiguais.

A Bahia é apenas uma miniatura desse paradoxo nacional. O que ali acontece não é exceção é regra. É o reflexo ampliado de um sistema que normaliza a exclusão enquanto celebra a diversidade. Um país que exporta cultura negra, mas não partilha poder com os negros. Um país que consome a estética afro, mas rejeita a liderança afro.

A comparação com os Estados Unidos torna este contraste ainda mais evidente. Apesar de uma história marcada por segregação explícita, os Estados Unidos avançaram, com todas as suas contradições, para uma maior inclusão institucional. Negros ocupam cargos de relevo em todas as esferas: política, justiça, economia, academia. A representação não resolve tudo, mas é um sinal claro de disputa e conquista de espaço.

No Brasil e na Bahia em particular essa disputa parece travada antes mesmo de começar. O acesso ao poder continua condicionado por barreiras invisíveis, mas eficazes: redes de influência fechadas, elitismo estrutural, racismo institucional. Não é preciso proibir para excluir. Basta dificultar o acesso até que a exclusão se torne “natural”.

É precisamente essa naturalização que torna o problema mais grave. Porque o que não é nomeado não é combatido. E o que não é combatido perpetua-se. O silêncio torna-se cúmplice. A normalidade transforma-se em injustiça institucionalizada.

Dizer que existe um sistema semelhante ao apartheid na Bahia não é um exagero retórico é um alerta político. Um grito contra a hipocrisia de um país que se orgulha da sua diversidade, mas teme a redistribuição real de poder.

Se a Bahia é o espelho do Brasil, então o reflexo é claro: não basta celebrar a identidade negra nas ruas, nos carnavais e nas expressões culturais. É preciso garantir que essa identidade também governe, decida e lidere.

Caso contrário, continuará a existir um Brasil de muitos governado por poucos. E isso não é democracia. É exclusão com verniz de convivência.

Birmingham, 11 de Maio de 2027

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