O governo do Zimbabwe iniciou um processo que poucos imaginavam possível há duas décadas: a devolução de propriedades agrícolas e o pagamento de indemnizações aos fazendeiros zimbabweanos brancos, num esforço para corrigir erros do passado e reconstruir a confiança internacional. Numa primeira fase 67 fazendas serão devolvidas e cerca de 146 milhões de dólares serão pagos como compensação. Este movimento não é apenas administrativo é político, histórico e profundamente simbólico.
Malundo Kudiqueba
Um regresso inesperado: terras devolvidas após décadas
Depois de mais de 25 anos marcados por disputas, expulsões e tensão racial, Harare dá sinais de recuo. As propriedades agora devolvidas pertenciam a cidadãos de países como Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Suíça e antiga Jugoslávia.
Mas o alcance da medida vai além:
o governo anunciou também a restituição de centenas de fazendas tanto a agricultores negros como brancos, num gesto que procura equilibrar justiça histórica com reconciliação nacional.
Esta decisão representa uma mudança clara de discurso: de confrontação para acomodação, de ruptura para tentativa de reconstrução.
A raiz do problema: terra, poder e desigualdade
Para compreender este momento, é necessário recuar ao período colonial. Durante o domínio britânico, vastas extensões de terra fértil foram concentradas nas mãos de uma minoria branca. Quando o país conquistou a independência, em 1980, cerca de 4 mil agricultores brancos controlavam quase metade das melhores terras agrícolas.
Perante esta realidade, o novo Estado comprometeu-se a redistribuir a terra para corrigir desigualdades históricas. No entanto, o processo foi lento, politicamente sensível e financeiramente dependente de apoios externos nomeadamente do Reino Unido, que acabou por retirar o seu financiamento nos anos 90.
O ponto de ruptura: invasões e colapso agrícola
No ano 2000, sob liderança de Robert Mugabe, o país entrou numa fase crítica. Incentivadas pelo poder político, invasões de fazendas multiplicaram-se, conduzidas por camponeses, jovens e veteranos de guerra.
O objectivo era claro: corrigir injustiças coloniais.
O método, porém, teve consequências devastadoras.
- Agricultores foram expulsos à força
- Vidas foram perdidas
- Milhares de trabalhadores rurais ficaram sem sustento
- A produção agrícola entrou em colapso
O Zimbabwe, outrora considerado o celeiro da região, mergulhou numa crise alimentar e económica profunda. As sanções internacionais agravaram ainda mais o isolamento do país.
Indemnizar para recomeçar: pragmatismo ou necessidade?
Décadas depois, a realidade impõe-se. Sem acesso facilitado a financiamento internacional e com a economia fragilizada, o governo zimbabueano percebeu que precisava de restabelecer pontes com investidores e credores internacionais.
O acordo de indemnização que já chegou a envolver valores na ordem dos 3,5 mil milhões de dólares surge como tentativa de normalização. No entanto, nem todos os agricultores aceitaram os termos propostos, especialmente quando estes incluíam pagamentos através de obrigações em vez de dinheiro imediato.
Ainda assim, o pagamento inicial de 146 milhões de dólares e a devolução de terras representam um passo concreto ainda que parcial na direcção de uma solução.
Reconciliação ou correção tardia?
A grande questão permanece:
trata-se de reconciliação genuína ou de um recuo forçado pelas circunstâncias económicas?
Para alguns, é um reconhecimento tardio de erros graves.
Para outros, é simplesmente uma necessidade estratégica para salvar a economia.
O facto é que o Zimbabwe está a tentar reescrever uma parte sensível da sua história uma história onde justiça social, violência política e colapso económico se cruzaram de forma dramática.
A devolução de terras e o pagamento de indemnizações não apagam o passado, mas podem abrir caminho para um futuro diferente. Um futuro onde a segurança jurídica, a confiança e a estabilidade sejam pilares reais e não apenas promessas.
O Zimbabwe enfrenta agora um teste decisivo:
conseguir equilibrar justiça histórica com credibilidade económica.
Porque, no fim, a terra não é apenas um recurso é memória, poder e, acima de tudo, responsabilidade.
Birmingham, 10 de Maio de 2026
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