Se a mobilidade já é um problema, os custos logísticos são ainda mais alarmantes. Dangote revela um dado que desmonta qualquer narrativa optimista: é mais caro transportar mercadorias de Lagos para Accra do que enviá-las de Espanha para Lagos. Este facto não é apenas chocante é humilhante. Mostra um continente onde o comércio interno é penalizado, enquanto o comércio externo, paradoxalmente, se torna mais acessível. Que tipo de economia sobrevive a esta lógica?
Que tipo de integração é possível com estes custos? Que futuro se constrói quando é mais fácil fazer negócios com a Europa do que com o país vizinho?
Malundo Kudiqueba
A consequência é inevitável: muitos empresários africanos são empurrados para fora do mercado. E, num cenário ainda mais preocupante, grande parte do transporte de mercadorias no continente é dominado por estrangeiros. África produz, mas outros movimentam. África consome, mas outros lucram.
O preço da desunião africana
O alerta de Dangote não é apenas económico — é político e estratégico. África não precisa apenas de discursos sobre unidade. Precisa de decisões concretas. Precisa de coragem política para derrubar barreiras internas. Precisa de líderes que compreendam que soberania sem cooperação é atraso.
Cada fronteira fechada é uma oportunidade perdida.
Cada taxa excessiva é um investimento que não acontece.
Cada obstáculo burocrático é um empresário que desiste.
África não pode continuar refém de si própria.
A mensagem é clara e urgente: ou África se integra, ou continuará a ficar para trás. Não por falta de recursos, não por falta de talento, mas por falta de visão colectiva.
Dangote expôs o problema. Agora resta saber: quem terá coragem de enfrentá-lo?
O homem mais rico de África, Aliko Dangote, juntou-se recentemente às vozes que defendem uma África sem fronteiras, criticando duramente as barreiras artificiais e certas políticas que continuam a travar o desenvolvimento económico do continente.
Dangote lamenta que, apesar de África possuir um enorme potencial, a fragmentação territorial herdada e mantida por interesses políticos e burocráticos esteja a dificultar seriamente o crescimento. Segundo ele, a falta de integração não é apenas um problema político — é um obstáculo directo ao investimento, ao comércio e à mobilidade empresarial.
“Alguém como eu precisa de 38 passaportes para circular em África. Como é que posso investir se não consigo sequer movimentar-me livremente?”, questionou numa entrevista recente. Esta afirmação revela não só a complexidade burocrática existente, mas também o absurdo de um continente que, embora unido geograficamente, continua profundamente dividido administrativamente.
Dangote defende que o progresso de África passa necessariamente por três pilares fundamentais: livre circulação de pessoas, livre circulação de bens e livre prestação de serviços. Para ele, estes não são luxos, mas sim condições básicas para qualquer economia moderna. Sem estas reformas estruturais, afirma, será impossível construir uma África verdadeiramente próspera e competitiva a nível global.
No que diz respeito ao sector dos transportes, o empresário foi ainda mais contundente. Segundo Dangote, os custos elevados de transporte estão a expulsar muitos africanos do mundo dos negócios, tornando inviável a actividade comercial em várias regiões. Como consequência, grande parte do transporte de mercadorias no continente acaba por ser dominada por empresas estrangeiras, em vez de operadores africanos uma realidade que expõe a fragilidade das economias locais.
Num dado particularmente chocante, Dangote revelou que é actualmente mais caro transportar mercadorias de Lagos (Nigéria) para Accra (Gana) do que enviá-las desde Espanha para Lagos. Este exemplo ilustra de forma clara como as barreiras internas, a burocracia, os custos logísticos e a falta de infra-estruturas eficazes estão a prejudicar o comércio intra-africano.
Em síntese, a mensagem de Dangote é clara: África não precisa apenas de recursos precisa de integração real, visão estratégica e vontade política para derrubar as barreiras que impedem o seu verdadeiro crescimento. Sem isso, o continente continuará a perder oportunidades e a depender de actores externos para dinamizar a sua própria economia.
Birmngham, 10 de Maio de 2026
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