Refinaria de Cabinda: entre a narrativa oficial e a informação internacional. Na sequência do seu vídeo sobre a refinaria de Cabinda, deparei-me com uma matéria publicada no jornal económico internacional Business Insider Africa que levanta uma questão incontornável: afinal, em que estado real se encontra este projecto estratégico para Angola? Não estamos perante um detalhe técnico estamos perante um teste à credibilidade do Estado. A informação não pode ser um jogo de versões. O país não pode viver de narrativas paralelas. A verdade não pode depender da geografia de quem publica. Ou a refinaria funciona, ou não funciona. Não há meio-termo quando se trata de infra-estruturas desta dimensão. A opinião pública não pode ser tratada como espectadora passiva.
Malundo Kudiqueba
Segundo a referida publicação, a refinaria de Cabinda a primeira construída no país desde a independência já iniciou a exportação de combustível e está, simultaneamente, a abastecer o mercado interno. Se isto for verdade, trata-se de um marco histórico. Se não for, trata-se de desinformação grave. Não se pode anunciar produção sem produção real. Não se pode falar de exportação sem transparência. Números exigem prova, não propaganda. A economia não se constrói com comunicados. Factos não são opcionais. O desenvolvimento não pode ser encenado.
No entanto, esta informação entra em choque frontal com declarações recentes no espaço público nacional. O jornalista Reginaldo Silva afirmou que o ministro Diamantino de Recursos Minerais, Petróleo e Gás Diamantino Pedro Azevedo confirmou que as obras se encontram ainda numa fase inicial, praticamente na “estaca zero”. Aqui reside a ruptura da narrativa. Duas versões, um mesmo projecto. Duas realidades, um só país. Alguém não está a dizer toda a verdade. Não se pode governar com ambiguidades. A confiança pública não resiste à contradição. A incoerência institucional mina qualquer projecto de desenvolvimento.
Perante este contraste, impõe-se uma reflexão séria. Não é apenas uma questão de comunicação é uma questão de responsabilidade. O silêncio agrava a suspeita. A contradição alimenta a desconfiança. A falta de esclarecimento é, por si só, um problema. Quem deve esclarecer não pode fugir. Quem governa tem o dever de explicar. A verdade institucional não pode ser fragmentada.
Estamos perante um problema de comunicação institucional? Uma descoordenação entre fontes? Ou algo mais profundo, que toca a credibilidade das narrativas oficiais e a transparência na gestão de projectos públicos? Não se trata apenas de erro pode tratar-se de estratégia. Não se trata apenas de falha pode tratar-se de omissão. A comunicação pública não pode ser improvisada. A verdade não pode ser ajustada conforme o público. O país não pode viver de versões convenientes. A transparência não é opcional. É um dever.
Do ponto de vista analítico, há três hipóteses principais. Mas nenhuma delas justifica a contradição absoluta. Nenhuma delas legitima versões opostas. Nenhuma delas explica o silêncio institucional. Nenhuma delas resolve o problema da confiança. Nenhuma delas substitui a verdade factual. Nenhuma delas protege a credibilidade do país. Nenhuma delas pode ser aceite sem questionamento.
Primeiro, a possibilidade de fases distintas do projecto estarem a ser comunicadas de forma confusa. É plausível, mas não aceitável. A complexidade não pode servir de desculpa. A técnica não pode esconder a verdade. O público merece clareza. A comunicação deve ser rigorosa. A informação deve ser consistente. A linguagem deve ser inequívoca. A transparência deve ser total.
Segundo, a diferença de fontes e interesses. Um órgão internacional pode basear-se em informações empresariais ou de investidores, interessados em demonstrar progresso. Mas isso levanta outra questão. Estar-se-á a vender uma imagem que não corresponde à realidade? Estar-se-á a construir uma narrativa para consumo externo? Estar-se-á a privilegiar a percepção internacional em detrimento da verdade interna? A credibilidade não pode ser exportada com base em ilusões. O país não pode ser promovido com dados duvidosos. A reputação constrói-se com verdade, não com marketing.
Terceiro, e mais preocupante, a hipótese de desfasamento entre discurso e realidade. Se assim for, estamos perante um problema estrutural. A política não pode antecipar factos inexistentes. A comunicação não pode substituir a execução. O anúncio não pode valer mais do que a obra. A narrativa não pode preceder a realidade. A confiança não sobrevive à ficção. O país não pode ser governado por percepções. A verdade tem de ser material.
E é aqui que surge a questão central: se o próprio ministro confirmou ao jornalista Reginaldo Silva que as obras ainda estão por avançar, não se justifica a publicação de notícias contrárias em órgãos internacionais como o Business Insider Africa. Não se trata apenas de erro trata-se de incoerência grave. Não se trata apenas de imagem trata-se de verdade. Será isto uma tentativa de impressionar investidores estrangeiros? Será uma estratégia de marketing político? Ou estaremos perante uma desconexão total entre comunicação e realidade? Mentiras, se forem mentiras, não constroem nações. Ilusões não refinam petróleo. Narrativas não substituem infra-estruturas. E a verdade, mais cedo ou mais tarde, impõe-se.
Para mais esclarecimentos entraremos em contacto com o Ministro Diamantino Pedro Azevedo e com o jornalista Reginaldo Silva.
Birmingham, 08 de Maio de 2026
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