Num cenário em que a democracia é frequentemente confundida com desordem e a liberdade com anarquia, a liderança de um militar surge, para alguns, como uma necessidade. Sociologicamente falando, afirmar que Angola ainda não está plenamente preparada para ter um civil como Presidente da República pode soar polémico mas levanta questões profundas sobre cultura política, consciência cívica e heranças históricas que moldam o comportamento colectivo.
Malundo Kudiqueba
Durante décadas, Angola foi governada sob uma lógica fortemente centralizada, com raízes no período pós-independência e na longa guerra civil. Esse passado criou uma cultura de autoridade onde o poder é visto, muitas vezes, como algo que deve ser forte, quase incontestável. Nesse contexto, a figura de liderança tende a ser associada à ordem, controlo e até disciplina características tradicionalmente ligadas ao perfil militar. A transição para uma liderança civil exige mais do que mudança de rosto; exige uma transformação profunda na forma como a sociedade entende o poder.
Um dos principais desafios reside na forma como parte do povo angolano interpreta a democracia. Em muitos casos, liberdade é confundida com ausência de regras. O direito à expressão transforma-se, por vezes, em espaço para desordem, desinformação e confronto gratuito. A democracia não é sinónimo de anarquia pelo contrário, exige responsabilidade, respeito pelas instituições e consciência dos limites individuais em prol do bem colectivo. Quando essa distinção não é clara, cria-se um ambiente instável, onde a autoridade é constantemente testada, não por espírito crítico construtivo, mas por impulso de contestação desorganizada.
Por outro lado, há também uma distorção preocupante no comportamento de alguns actores políticos. A imunidade parlamentar, que deveria proteger o exercício livre e independente das funções políticas, é frequentemente confundida com impunidade. Isto enfraquece o Estado de Direito e transmite à sociedade uma mensagem perigosa: a de que existem cidadãos acima da lei. Quando os próprios líderes não respeitam os limites legais e éticos, torna-se difícil exigir disciplina e responsabilidade ao cidadão comum.
Essa dupla fragilidade uma cultura popular ainda em processo de maturação democrática e uma classe política que, em alguns casos, falha no exemplo cria um ciclo vicioso. O povo desconfia das instituições, reage de forma desorganizada, e os líderes, por sua vez, reforçam práticas que perpetuam essa desordem.
Dizer que Angola não está preparada para um Presidente civil não significa rejeitar a democracia, mas sim reconhecer que a sua consolidação depende de bases sólidas: educação cívica, instituições fortes, cultura de responsabilidade e liderança ética. Um Presidente civil pode e deve ser o futuro mas esse futuro exige preparação colectiva.
Angola precisa, acima de tudo, de reconciliar-se com os princípios da democracia verdadeira: liberdade com responsabilidade, autoridade com legitimidade, e poder com prestação de contas. Só assim será possível construir um país onde não importa se o líder é civil ou militar mas sim se é justo, competente e comprometido com o bem comum.
Birmingham, 28 de Abril de 2026
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