Nem todas as opiniões merecem debate: numa democracia saudável, há limites claros para aquilo que pode ser legitimado, sobretudo quando certas ideias existem apenas para destruir os próprios valores que garantem a liberdade. A declaração do advogado Garcia Pereira “Com fascistas não se debate, combate-se. A democracia não pode ser tolerante com aqueles que a querem destruir” deve ser entendida como um alerta claro e actual. Concordar com esta posição não é radicalismo, é lucidez política e memória histórica. Há ideologias que não entram no espaço democrático para contribuir, mas para o corroer a partir de dentro. Há ideologias que usam a liberdade como cavalo de Troia para a destruir.
Malundo Kudiqueba
A democracia não é um terreno onde tudo é aceitável em nome da pluralidade. Ela assenta em princípios fundamentais dignidade humana, igualdade e liberdade que não podem ser relativizados. O fascismo, por natureza, rejeita esses valores e promove a exclusão e o autoritarismo. Não se pode dialogar com quem nega o direito do outro existir.
A história do século XX é inequívoca: o fascismo cresceu também graças à complacência e à hesitação das democracias. Acreditou-se que seria possível integrá-lo ou neutralizá-lo apenas com debate. Esse erro custou milhões de vidas. A complacência de ontem transformou-se na tragédia de milhões.
Concordar com Garcia Pereira é reconhecer que a democracia tem o direito e o dever de se defender. Isso não implica abandonar o Estado de direito, mas sim aplicá-lo com firmeza contra quem o ameaça. Instituições fortes e cidadãos conscientes são a primeira linha de defesa. A liberdade não pode ser ingénua nem suicida.
O combate ao fascismo começa na recusa da sua normalização. Não se limita às instituições; passa também pela sociedade, pela linguagem e pela cultura. Dar palco a discursos extremistas como se fossem apenas mais uma opinião é abrir caminho à sua legitimação. Tratar o inaceitável como discutível é o primeiro passo para o aceitar.
Há quem defenda que tudo deve ser debatido sem excepção. Mas essa visão ignora que o fascismo não procura convencer procura dominar. Usa o debate como instrumento tático, não como princípio democrático. Quem rejeita as regras da democracia não pode beneficiar delas.
Concordar com Garcia Pereira é, no fundo, afirmar que a democracia precisa de firmeza para sobreviver. Defender a liberdade exige coragem, clareza e ação. Não se trata de limitar o debate, mas de proteger o próprio espaço onde ele existe. Uma democracia que não se defende acaba por desaparecer.
Birmingham, 27 de Abril de 2026.
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