Fuga de cérebros: culpa de quem? Falta de oportunidades ou falta de patriotismo?

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Durante anos, construiu-se um discurso cómodo: quem sai, trai. Quem fica, resiste. Mas essa narrativa, repetida até à exaustão, começa a revelar-se não só simplista, como profundamente injusta. Porque ninguém abandona o seu país por prazer quando nele encontra dignidade, reconhecimento e oportunidades reais de crescimento.

A verdade é incómoda: muitos dos que partem não fogem de Angola fogem das limitações que Angola lhes impõe.

Falta de emprego qualificado. Salários que não acompanham o custo de vida. Progressão profissional condicionada por factores que pouco têm a ver com mérito. Um ambiente onde, demasiadas vezes, o talento cede lugar às ligações. Neste contexto, exigir patriotismo absoluto soa menos a apelo moral e mais a imposição conveniente.

Mas será justo culpar apenas o sistema?

Também não.

Há uma dimensão individual que não pode ser ignorada. Alguns partem não apenas em busca de melhores condições, mas de caminhos mais fáceis. Outros, ao alcançarem sucesso no exterior, desligam-se completamente do seu país de origem, como se Angola fosse apenas um ponto de partida e nunca mais um destino possível. O patriotismo, nesse sentido, não deve ser descartado como valor.

Ainda assim, convém não inverter responsabilidades.

Um país que não cria condições para reter os seus melhores dificilmente pode exigir lealdade incondicional. O patriotismo não se impõe constrói-se. Alimenta-se com oportunidades, justiça e confiança no futuro. Sem isso, transforma-se numa palavra vazia, usada para mascarar falhas estruturais.

A fuga de cérebros não é apenas um problema de quem sai. É, sobretudo, um reflexo de quem fica e governa.

Cada jovem que parte representa um investimento perdido. Cada profissional que abandona o país leva consigo conhecimento, inovação e potencial de transformação. E o mais preocupante: muitos não planeiam regressar.

A pergunta, portanto, deve ser reformulada.

Não é “porque é que eles vão embora?”, mas sim:
“o que é que Angola está a fazer para que eles queiram ficar?”

Enquanto essa resposta continuar frágil, incompleta ou inexistente, o país continuará a assistir, impotente, à exportação dos seus melhores recursos não petróleo, não diamantes, mas inteligência.

E essa, ao contrário das outras, não se recupera com facilidade.

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