Quando o Papa Leão XIV afirmou que Angola possui “tesouros que ninguém pode roubar”, a frase soou como um hino à esperança, quase uma bênção lançada sobre um país rico em cultura, fé e recursos naturais. Contudo, a resposta do humorista angolano Gilmário Vemba caiu como um trovão num céu aparentemente sereno. Com a ironia que o caracteriza, declarou que os tesouros de Angola têm sido roubados desde 1482 — e acrescentou, com fina acidez, que antes de os roubarem, geralmente oram. Esta frase, simultaneamente cómica e trágica, despertou consciências e abriu um debate que vai muito além do humor.
Malundo Kudiqueba
A observação de Gilmário não é apenas uma piada; é um espelho. Um espelho que reflecte séculos de exploração, cumplicidade e silêncio. Desde a chegada dos primeiros navegadores portugueses à foz do rio Congo, Angola tornou-se palco de uma história marcada por interesses externos e fragilidades internas. Os recursos naturais diamantes, petróleo, terras férteis foram, ao longo dos tempos, motivo de cobiça. E, como sugere o humorista, muitas vezes envoltos em discursos moralistas ou até religiosos.
- Roubaram-nos a terra, mas ensinaram-nos a rezar antes do roubo.
- A fé tem sido usada como máscara para interesses que jamais foram divinos.
- Angola não é pobre; foi empobrecida por mãos visíveis e invisíveis.
- O silêncio dos cúmplices é tão grave quanto a acção dos ladrões.
- Nem todos os que rezam são inocentes, e nem todos os que governam são justos.
- A história de Angola é também a história de quem lucrou com a sua dor.
- O verdadeiro tesouro de Angola é o seu povo e esse tem sido constantemente traído.
Gilmário Vemba, sem apontar nomes, fez uma crítica abrangente e corajosa. Criticou os angolanos que, por acção ou omissão, participam neste ciclo de exploração. Criticou os portugueses, cuja presença histórica deixou marcas profundas e ainda hoje levanta questões sobre responsabilidade e reparação. Criticou o Vaticano e a Igreja, sugerindo que a espiritualidade, em certos momentos, foi instrumentalizada para legitimar actos questionáveis. E, por fim, criticou a própria Igreja angolana, que, em vez de ser sempre voz profética, por vezes se manteve em silêncio.
A força da sua intervenção reside precisamente na ausência de nomes. Porque, ao não individualizar, universaliza. Todos somos chamados à reflexão. Todos somos, em alguma medida, parte do problema ou da solução. A crítica não é destrutiva; é um convite à consciência.
A frase do Papa Leão XIV não deixa de ter valor. Talvez ele se referisse aos tesouros imateriais: a cultura, a resiliência, a fé do povo angolano. Esses, de facto, são difíceis de roubar. Mas Gilmário lembra-nos que os tesouros materiais têm sido sistematicamente saqueados muitas vezes com a bênção de instituições que deveriam proteger.
Este episódio revela o poder da palavra seja ela papal ou humorística. Ambas têm impacto, ambas moldam percepções. Mas é na tensão entre elas que nasce a verdade mais profunda. Angola precisa de mais vozes como a de Gilmário: vozes que incomodam, que questionam, que não se contentam com discursos bonitos.
No fim, talvez os tesouros de Angola não sejam apenas aquilo que está debaixo da terra, mas aquilo que está dentro do seu povo. E esse tesouro, apesar de tudo, continua vivo à espera de ser finalmente valorizado, protegido e respeitado.
Birmingham, 22 de Abril de 2026.
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