Dizem que em Angola há portas que se abrem com chave, outras com força… e algumas, as mais importantes, abrem-se com ajuda da Manucha. A Manucha não trabalha em nenhum ministério pelo menos oficialmente. Não é directora, nem chefe de secção, nem secretária de nada. Mas experimenta precisar de resolver um assunto e verás: alguém vai dizer, com toda a naturalidade do mundo, “fala com a Manucha”.
Malundo Kudiqueba
E pronto. A partir daí, o processo deixa de ser teu e passa a ser do sistema paralelo, aquele que funciona à base de contactos, favores e um certo talento social que não se aprende em curso nenhum.
Manucha é aquela pessoa que conhece sempre alguém. Não importa o problema documento atrasado, processo parado, porta fechada há sempre um “meu mais velho” do outro lado da linha. E o mais impressionante: ele nem precisa explicar muito. Um “ô kota, vê aí isso” costuma bastar para pôr as engrenagens a mexer.
O curioso é que ninguém sabe bem como ela construiu essa rede. Não há currículo e não há histórico verificável. Mas há resultados. E, no fim do dia, em Angola, resultado fala mais alto do que certificado.
Claro que há todo um ritual. Não se chega até a Manucha de qualquer maneira. Há o cumprimento reforçado, o respeito bem medido, a conversa inicial que não pode parecer interesse imediato embora seja exactamente isso. Porque aqui, pedir ajuda é uma arte, e oferecer ajuda… é investimento.
E Manucha sabe disso. Ele nunca diz “sim” de forma directa. O clássico é: “vamos ver”. Mas esse “vamos ver” tem mais peso do que muitos “confirmado” por aí. É um “vamos ver” que acalma, que cria expectativa, que faz a pessoa já imaginar o problema resolvido antes mesmo de estar.
No meio de tudo isso, há uma espécie de equilíbrio silencioso. Hoje Manucha ajuda, amanhã será ajudada. Porque até o homem que conhece todos… conhece alguém que conhece mais um.
Mas também há uma pergunta que fica no ar, discreta, quase tímida: e se um dia não fosse preciso o Manucha?
E se as portas abrissem com regras claras, sem necessidade de intermediários informais?
Talvez fosse mais simples. Talvez fosse mais justo.
Mas também, sejamos honestos… ia tirar um certo protagonismo a nossa amiga Manucha.
E Angola, sem essas figuras quase lendárias do quotidiano, perdia um bocadinho da sua própria narrativa.
No fim, entre papéis, filas e esperas, há sempre uma Manucha por perto ou pelo menos a esperança de um. Porque aqui, mais do que documentos, o que realmente circula são ligações.
E esse… é o verdadeiro cartão de acesso.
Birmingham, 22 de Abril de 2026
Este post já foi lido 684 vezes.
