Brasil: Um criminoso não combate o crime

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Malundo Kudiqueba

Ao longo dos últimos anos, denúncias de abusos, execuções extrajudiciais, uso excessivo da força e arbitrariedades têm sido recorrentes. Relatórios independentes, testemunhos de vítimas e investigações jornalísticas apontam para um padrão preocupante. Em certas zonas, a actuação da polícia militar não é vista como solução, mas como mais um factor de medo e instabilidade. A polícia militar comete mais crimes do que os bandidos de rua.

Esta afirmação, embora polémica, reflecte um sentimento crescente em sectores da sociedade. Quando agentes do Estado ultrapassam os limites da lei, a gravidade é ainda maior, pois actuam sob o manto da autoridade e com acesso a meios que o cidadão comum não possui. A polícia militar comete muitas atrocidades e arbitrariedades que os bandidos de rua não praticam.

Casos de violência desproporcional, invasões ilegais, detenções arbitrárias e até mortes em circunstâncias duvidosas são frequentemente associados a operações policiais em áreas periféricas. Para muitos cidadãos, especialmente os mais vulneráveis, o medo já não vem apenas do crime comum, mas também de quem deveria combatê-lo. Nunca vi um criminoso combater outro criminoso.

Esta frase traduz uma crítica profunda à percepção de que, em certos contextos, a linha que separa autoridade e ilegalidade se torna difusa. Quando há abuso de poder, a confiança nas instituições começa a ruir. O criminoso fardado combate o criminoso de rua.

A ideia de que o Estado combate o crime através de práticas igualmente questionáveis levanta um dilema moral e institucional. Pode haver segurança sem respeito pela lei? Pode haver ordem quando os próprios agentes a violam? Sem controlo e responsabilização, a autoridade transforma-se em ameaça.

A ausência de mecanismos eficazes de fiscalização e punição contribui para a repetição destes comportamentos. Em muitos casos, a impunidade alimenta um ciclo perigoso onde abusos se tornam rotina. A violência institucional é tão perigosa quanto o crime organizado.

Quando a violência parte do próprio Estado, o impacto social é ainda mais profundo. A população perde referências, a confiança desaparece e o sistema entra em crise. Reformar a polícia é tão urgente quanto combater o crime.

Especialistas defendem que a solução passa por reformas estruturais: melhor formação, maior controlo externo, transparência e responsabilização efectiva. Sem isso, qualquer política de segurança estará incompleta.

O Brasil enfrenta, assim, um desafio duplo: combater o crime organizado e, ao mesmo tempo, garantir que as forças de segurança actuem dentro da legalidade. Não basta reduzir estatísticas de criminalidade se, para isso, se sacrificarem princípios fundamentais do Estado de direito.

A segurança verdadeira não se constrói apenas com força, mas com justiça, equilíbrio e respeito pelos direitos humanos. Caso contrário, o país corre o risco de substituir um problema por outro — igualmente grave e potencialmente mais destrutivo.

Birmingham, 17 de Abril de 2026.

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