As críticas dirigidas a figuras como o general Nunda, por ter abandonado a UNITA, levantam um debate profundo sobre o verdadeiro significado de lealdade política e os limites dessa mesma fidelidade em contextos de risco pessoal. Vários membros e dirigentes do partido têm classificado essa decisão como traição, numa postura que revela mais emoção do que coerência histórica e política.
Importa recordar que a própria história da UNITA está marcada por rupturas e recomeços. Jonas Savimbi, fundador do partido, teve passagens pela FNLA e pelo MPLA antes de criar a sua própria organização política. No entanto, raramente é rotulado como traidor por essas decisões, o que evidencia um claro duplo critério na forma como se julgam situações semelhantes.
Não se pode condenar uns por fazerem o mesmo que outros fizeram para construir a história.
A acusação de traição dirigida ao general Nunda ignora um princípio fundamental: sair de um partido político é um direito, não um crime. Em qualquer sistema que se pretenda democrático, a liberdade de associação inclui também a liberdade de desassociação. Transformar essa escolha num acto de condenação moral é um sinal preocupante de intolerância política.
A liberdade política perde sentido quando sair se torna pecado e ficar se torna obrigação.
O mesmo padrão tem sido aplicado a Abel Chivukuvuku, igualmente acusado de traição por ter seguido um caminho próprio. Esta tendência revela uma cultura política que, em vez de aceitar a pluralidade, insiste em rotular e descredibilizar quem diverge ou decide seguir outra via.
Mais grave ainda é ignorar as circunstâncias que podem motivar essas decisões. Quando uma pessoa enfrenta ameaças reais à sua integridade física ou à sua vida, a questão deixa de ser política e passa a ser humana. Nenhuma lealdade partidária pode ser colocada acima do direito à vida.
A vida não se negocia, não se subordina e não se sacrifica por conveniências partidárias.
A sobrevivência é um limite inegociável. A lealdade política tem fronteiras claras, e uma delas é precisamente a preservação da vida. Exigir que alguém permaneça num espaço onde se sente em perigo é não apenas injusto, mas profundamente desumano.
Nenhuma bandeira vale mais do que a vida de quem a carrega.
Além disso, é fundamental compreender que cargos, títulos ou posições — como o de general — não podem ser vistos como correntes que prendem um indivíduo a uma estrutura. A dignidade humana está acima de qualquer estatuto, e a liberdade de escolha deve ser respeitada em todas as circunstâncias.
Quando alguém decide sair e procurar outro projecto, não está necessariamente a trair — pode estar simplesmente a proteger-se e a procurar um ambiente mais seguro e coerente com os seus valores. Reduzir essa decisão a uma narrativa de traição é simplificar uma realidade complexa.
A coragem de sair também é uma forma de dignidade.
O debate político em Angola precisa de evoluir para um nível mais maduro, onde as decisões individuais sejam analisadas com equilíbrio e não com julgamentos precipitados. A crítica é legítima, mas deve ser justa, coerente e baseada em princípios.
Incoerência política não constrói credibilidade, apenas revela fragilidade.
Em suma, classificar automaticamente como traidor quem abandona um partido, especialmente em contexto de risco, é uma posição que ignora direitos fundamentais e revela falta de consistência histórica. A política deve ser um espaço de liberdade, não de imposição.
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