O recente comentário de Carlos Magno na CNN Portugal, onde afirmou que a escravatura transatlântica não foi o maior crime contra a humanidade gerou indignação e perplexidade. Não apenas pelo conteúdo da afirmação, mas pela forma leviana como um tema tão sensível foi tratado. A tentativa de relativizar e romantizar o holocausto contra africanos exige mais do que opinião: exige conhecimento, responsabilidade e respeito histórico. Relativizar e romantizar a escravatura é desrespeitar milhões de vítimas e apagar a dimensão do sofrimento humano. Se o senhor Carlos Magno não sabe, tenha a humildade de perguntar aos africanos o que realmente aconteceu no Congo. Deixe, por momentos, a arrogância intelectual de lado e procure ouvir antes de opinar. No Congo sob o Rei Leopoldo II, da Bélgica cerca de 15 milhões de pessoas foram brutalmente assassinadas.
Malundo Kudiqueba
Ao afirmar que os próprios africanos praticavam escravatura, Carlos Magno recorre a um argumento frequentemente utilizado para diluir responsabilidades históricas. A escravatura transatlântica foi um sistema industrializado, racializado e desumanizante, com impacto global e consequências que ainda hoje se fazem sentir. Confundir contextos históricos distintos é um erro que revela desconhecimento ou má-fé. Quando Carlos Magno afirma que a escravatura era praticada pelos próprios africanos, recorre a um argumento simplista e profundamente falacioso. É como se alguém justificasse um crime dizendo que o cometeu apenas porque viu outro a fazê-lo. Carlos Magno tentou defender o indefensável e justificar o injustificável e no fim culpar as vítimas. Para piorar, não apresentou nada de original: tudo o que disse reproduziu uma narrativa importada dos Estados Unidos.
O que se espera de um comentador é rigor, equilíbrio e preparação. Neste caso, ficou a sensação de que faltou estudo e sobrou arrogância intelectual. Antes de emitir opiniões públicas sobre temas desta magnitude, é essencial investigar, ler e compreender profundamente os factos históricos. Opinar sem conhecimento não é liberdade de expressão, é irresponsabilidade pública.
Mais preocupante ainda é a reprodução de narrativas importadas, sem o devido enquadramento. O discurso apresentado por Carlos Magno ecoa argumentos que têm circulado em certos meios nos Estados Unidos, associados a correntes revisionistas que procuram minimizar a escravatura. Trazer esse discurso para o contexto português, sem explicação ou crítica, é desinformar quem não acompanha o debate internacional. Importar narrativas sem contexto é contribuir para a desinformação.
Há também uma dimensão evidente de distanciamento em relação à realidade africana. As declarações revelam uma falta de contacto directo com a história, a cultura e a experiência dos povos africanos. Falar de África sem conhecer África conduz inevitavelmente a erros graves e generalizações perigosas. Quem fala sobre África sem a conhecer corre o risco de cair na ignorância disfarçada de opinião.
É importante recordar factos históricos que não podem ser ignorados. No Congo, durante o domínio do rei Leopoldo II da Bélgica, 15 milhões de pessoas foram brutalmente exploradas e mortas, num dos episódios mais sombrios da história colonial. Este tipo de violência, associado ao sistema de exploração e desumanização, reforça a dimensão trágica da escravatura e do colonialismo. A história africana está marcada por um sofrimento que não pode ser relativizado nem esquecido.
Perante tudo isto, impõe-se uma reflexão séria. Carlos Magno deveria demonstrar maior humildade intelectual, estudar mais profundamente a história e evitar comentários que simplificam ou distorcem realidades complexas. O espaço mediático exige responsabilidade, sobretudo quando se abordam temas que envolvem memória, dor e justiça histórica. Antes de falar sobre tragédias históricas, é preciso conhecer, respeitar e pensar.
Carlos Magno recebe nota negativa e destaca-se como o pior comentador da semana em toda a CPLP.
Birmingham, 28 de Março de 2026.
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