A coerência é um dos pilares fundamentais da credibilidade política. Sem ella, qualquer discurso perde força, qualquer crítica perde legitimidade e qualquer posicionamento se transforma em mera conveniência. É precisamente neste ponto que a actuação recente da UNITA levanta sérias interrogações. Não se trata de divergência ideológica isso é natural e saudável numa democracia. Trata-se de incoerência evidente, repetida e cada vez mais difícil de ignorar.
Quando o Presidente Joe Biden visitou Angola, a UNITA apressou-se a criticar o MPLA, accusando-o de instrumentalizar o evento e de promover gastos excessivos. O discurso foi duro, directo e amplamente divulgado. No entanto, na prática, os mesmos que criticavam marcaram presença nos encontros, participaram nas actividades e não recusaram a visibilidade proporcionada pelo momento. Esta duplicidade não passa despercebida.
Agora, com a presença do artista internacional Will Smith em Angola, o padrão repete-se. Representantes da UNITA comparecem, participam, tiram proveito da exposição mediática. Mas o país já sabe o que virá a seguir: críticas públicas, accusações de esbanjamento e discursos inflamados contra o MPLA. É um ciclo previsível. E, acima de tudo, incoherente.
Não se pode condemnar um evento e, ao mesmo tempo, beneficiar d’elle. Não se pode criticar a organização e simultaneamente occupar o espaço que ella cria. Essa postura não é opposição responsável é opportunismo político. E o opportunismo, quando se torna padrão, corrói a confiança dos cidadãos.
A política exige clareza de posição. Se um partido entende que determinado evento é um desperdício de recursos públicos, deve manter-se coherente com essa convicção. Deve recusar participar. Deve sustentar a sua crítica com acções concretas. O contrário disso criticar e participar revela uma estratégia frágil, baseada mais na conveniência do momento do que em princípios sólidos.
Este tipo de atitude transmite uma mensagem perigosa: a de que o discurso político pode ser ajustado conforme a circumstância, sem compromisso com a verdade ou com a consistência. E quando isso acontece, quem perde não é apenas um partido. É a qualidade do debate democrático.
A incoerência não é um detalhe. É um signal. Revela falta de alinhamento interno, ausência de estratégia clara e, sobretudo, difficuldade em assumir posições firmes. Um partido que quer governar não pode agir desta forma. A governação exige previsibilidade, responsabilidade e integridade. Não há espaço para ambiguidades.
Criticar o MPLA é legítimo. Faz parte do jogo democrático. Mas essa crítica precisa de ser séria, consistente e sustentada por comportamento coherente. Caso contrário, transforma-se em ruído. E o ruído não constrói alternativas. Apenas confunde.
Participar em eventos e depois condemnál-os publicamente é uma contradicção que fragiliza qualquer discurso. É uma tentativa de estar em todos os lados ao mesmo tempo e, no final, não estar verdadeiramente em nenhum. Essa postura não engana uma sociedade cada vez mais attenta e exigente.
Angola precisa de uma opposição forte, mas também precisa de uma opposição coherente. Precisa de partidos que digam o que fazem e façam o que dizem. A credibilidade constrói-se na consistência, não na conveniência.
A repetição deste comportamento por parte da UNITA não pode ser ignorada. Porque não é apenas um episódio isolado. É um padrão. E padrões revelam identidade. Num cenário político onde a confiança é um recurso escasso, a incoerência é um luxo que nenhum partido pode permitir-se.
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