Os números impressionam. Um crescimento de 16,46 por cento na indústria transformadora não passa despercebido e é, à primeira vista, motivo de celebração. Mas importa questionar, com rigor e sem complacência: que crescimento é este? E, mais importante ainda, que resultados concretos produz na vida real dos cidadãos?
O crescimento económico, por si só, não é sinónimo de desenvolvimento. Pode ser apenas um reflexo conjuntural, inflacionado por factores temporários, ou até uma recuperação estatística após períodos de estagnação. Um número elevado não garante sustentabilidade, nem assegura transformação estrutural. E é precisamente aqui que reside o perigo: confundir expansão com progresso.
A indústria transformadora tem, sem dúvida, um papel estratégico na diversificação da economia angolana, historicamente dependente do petróleo. Contudo, um crescimento de 16,46 por cento levanta questões fundamentais. Está este aumento assente em produção local consistente ou depende, em grande medida, da importação de matérias-primas e bens intermédios? Está a criar cadeias de valor internas ou apenas a maquilhar indicadores?
Mais grave ainda: este crescimento traduz-se em emprego digno, em aumento do rendimento das famílias, em melhoria das condições de vida? Ou permanece confinado a relatórios e discursos institucionais, distante da realidade quotidiana da população?
Um crescimento que não se sente nas ruas, que não chega às pequenas e médias empresas, que não reduz desigualdades, é um crescimento vazio. É um crescimento que existe no papel, mas não na vida das pessoas. E Angola não precisa de números impressionantes; precisa de resultados tangíveis.
Há também que analisar a qualidade desse crescimento. Está assente em inovação, em capacitação técnica, em investimento sustentável? Ou resulta de incentivos pontuais, dependentes de políticas voláteis e de financiamento externo? Sem uma base sólida, qualquer expansão corre o risco de ser efémera.
A história económica está repleta de “booms” que se revelaram miragens. Crescimentos rápidos, mas frágeis, incapazes de resistir a choques externos ou a mudanças no contexto global. Angola não pode dar-se ao luxo de repetir esse erro.
É, pois, essencial ir além do entusiasmo estatístico e exigir transparência, profundidade e visão estratégica. Crescer não basta. É preciso saber como se cresce, para quem se cresce e com que impacto real.
Porque, no fim, a questão é simples e incontornável: este crescimento transforma o país ou limita-se a inflacionar expectativas?
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