A intervenção de João Cotrim de Figueiredo no seu espaço de comentário na SIC Notícias foi profundamente infeliz ao fazer um julgamento público sobre José Sócrates quando ainda não existe uma sentença definitiva dos tribunais. Num Estado de direito, ninguém deve ser tratado como culpado antes de decisão judicial, e esse princípio não pode ser ignorado num programa de análise política transmitido em televisão. Quando um comentador com visibilidade mediática assume o papel de juiz, corre o risco de substituir a justiça por opinião e de alimentar uma condenação pública antes do tempo.
Se existem atrasos no processo judicial, a responsabilidade deve ser discutida no contexto do funcionamento da justiça portuguesa, e não simplesmente atribuída à figura de José Sócrates. Criticar a lentidão da justiça é legítimo, mas transformar essa crítica num ataque pessoal antes de haver sentença é uma simplificação perigosa. A justiça deve responder pelos seus próprios prazos e decisões, sem que o debate público se transforme num tribunal paralelo.
Também causa estranheza que o debate político e mediático se concentre repetidamente numa única figura, quando todos sabem que os problemas estruturais de um país nunca dependem de apenas uma pessoa. Portugal teve múltiplos governos, diferentes maiorias parlamentares e várias lideranças ao longo das últimas décadas. Nenhum país é construído por um só homem, e também não é levado à crise por uma única pessoa.
A ideia de que José Sócrates seria o único responsável pela situação atual do país ignora a complexidade da política, da economia e das decisões colectivas tomadas ao longo de muitos anos. As responsabilidades de governação são sempre partilhadas por partidos, instituições e contextos internacionais.
Por isso, aquilo que deveria ser uma análise política rigorosa acabou por ser mais a um julgamento público. Quando um comentador decreta culpas antes dos tribunais, deixa de fazer análise e passa a emitir uma sentença mediática. E num Estado de direito, as sentenças devem ser proferidas pelos tribunais, não pelos estúdios de televisão.
Birmingham, 16 de Março de 2026.
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