O combate à corrupção não pode ser uma luta solitária
Em Angola, o combate à corrupção tornou-se uma das bandeiras mais visíveis do actual momento político. Desde que assumiu a Presidência, João Lourenço colocou este tema no centro do debate nacional e prometeu enfrentar um dos problemas mais profundos do país. No entanto, é preciso dizer com clareza e sem medo: o combate à corrupção não pode ser apenas o combate do Presidente da República. Transformar essa luta numa responsabilidade exclusiva de um homem é um erro grave — e, muitas vezes, um acto de má-fé política.
Malundo Kudiqueba
A corrupção não nasceu ontem. Ela não apareceu com um decreto, nem desaparecerá com um discurso. Durante décadas, práticas corruptas infiltraram-se em instituições, empresas, estruturas administrativas e até em comportamentos sociais quotidianos. Combater algo tão enraizado exige muito mais do que a vontade de um único líder. Exige uma mobilização nacional.
É por isso que todos devem ser chamados para esta batalha. O partido no poder, MPLA, tem responsabilidades claras na construção de um Estado mais transparente e eficiente. Mas a oposição, representada principalmente pela UNITA, também tem o dever histórico de participar activamente nesta luta, apresentando propostas, fiscalizando o poder e promovendo uma cultura política baseada na integridade.
A sociedade civil, por sua vez, não pode permanecer como espectadora. Organizações cívicas, igrejas, universidades, jornalistas e cidadãos comuns precisam assumir um papel vigilante. A corrupção sobrevive no silêncio, na indiferença e na normalização do erro. Quando a sociedade se cala, o sistema corrompido fortalece-se.
Há ainda um ponto que precisa ser dito com honestidade: é impossível que uma única pessoa erradique sozinha um problema que se tornou estrutural. Quem acusa João Lourenço de não ter eliminado completamente a corrupção em Angola ignora a complexidade do problema ou age deliberadamente de má-fé. Nenhum presidente, em nenhum país do mundo, tem esse poder isolado.
A corrupção não é apenas um problema político. É também um problema cultural e institucional. Quando subornos são aceites como “normais”, quando pequenos favores ilegais são tolerados, quando o mérito é substituído por influência, cria-se um ambiente onde a corrupção deixa de ser excepção e passa a ser regra.
Por isso, o verdadeiro desafio de Angola não é apenas punir corruptos — é transformar mentalidades. É construir instituições fortes, tribunais independentes, administração pública eficiente e uma cultura social que valorize a honestidade acima da esperteza.
A luta contra a corrupção exige coragem política, mas também exige responsabilidade colectiva. Não basta criticar; é preciso participar. Não basta apontar culpados; é preciso mudar comportamentos.
Angola precisa de um pacto nacional contra a corrupção. Um pacto que una governo, oposição e sociedade civil em torno de um objectivo comum: construir um país onde o dinheiro público seja respeitado, onde a justiça funcione e onde o futuro não seja sequestrado por interesses privados.
Se esta luta continuar a ser vista como a luta de um único homem, ela falhará. Mas se se transformar na luta de todos os angolanos, então haverá esperança real de mudança.
Birmingham, 06 de Março de 2026.
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