Sou frontalmente contra a taxa turística que as autoridades angolanas pretendem aplicar aos cidadãos estrangeiros hospedados em hotéis, resorts e pousadas no país. A proposta pode até surgir com o argumento de gerar receitas adicionais e estruturar o sector, mas, na prática, arrisca-se a penalizar ainda mais um destino que já enfrenta dificuldades evidentes de competitividade. Não se fortalece um sector fragilizado impondo-lhe mais peso fiscal.
Antes de se pensar em cobrar mais a quem nos visita, é preciso reconhecer uma realidade incontornável: Angola continua a ser um destino caro. Os preços praticados por muitos hotéis estão acima da média regional e, em vários casos, não correspondem à qualidade do serviço oferecido. Cobrar mais por um serviço que ainda precisa de melhorar é um erro estratégico. Acrescentar uma taxa turística a esta equação poderá transmitir a mensagem errada — a de que o país prefere aumentar encargos em vez de resolver problemas estruturais. O turismo não cresce por decreto, cresce por mérito.
Angola ainda não é um destino favorito dos turistas internacionais. Apesar do enorme potencial natural, da diversidade cultural e da hospitalidade do seu povo, o país enfrenta desafios que vão desde a burocracia no acesso a vistos até limitações em infra-estruturas, transportes, promoção externa e formação especializada no sector. Não se pode exigir mais do visitante quando ainda não lhe oferecemos o essencial com qualidade e consistência. Antes de se criar uma nova contribuição financeira, seria mais sensato investir seriamente na melhoria dessas áreas.
Num mercado turístico global altamente competitivo, cada detalhe conta. O viajante compara preços, condições de segurança, facilidade de deslocação, qualidade do atendimento e reputação do destino. Se Angola já parte em desvantagem em alguns destes aspectos, a introdução de uma taxa adicional poderá funcionar como mais um obstáculo psicológico e financeiro. Cada barreira adicional reduz a probabilidade de escolha. Não se trata apenas do valor em si, mas da percepção que ele gera. E percepção, no turismo, vale tanto quanto a realidade.
Além disso, a prioridade deveria ser tornar o destino mais atractivo e previsível. Investir na qualificação dos profissionais do sector, melhorar estradas de acesso às zonas turísticas, garantir estabilidade nos serviços básicos e reforçar campanhas de promoção internacional são medidas que produzem impacto directo na experiência do visitante. Só depois de consolidada essa base é que faria sentido discutir mecanismos adicionais de financiamento. Primeiro constrói-se a casa, depois discute-se a decoração.
Também é fundamental considerar o efeito simbólico da decisão. Ao taxar especificamente os estrangeiros, o país corre o risco de reforçar a ideia de que o turista é visto sobretudo como fonte de receita imediata, e não como parceiro estratégico para o desenvolvimento do sector. O turismo sustentável constrói-se com confiança, boa reputação e experiências positivas — não apenas com novos encargos. Quem chega deve sentir-se bem-vindo, não sobrecarregado.
Outro ponto relevante prende-se com a transparência e a gestão dos recursos arrecadados. Sem garantias claras de que os valores cobrados serão efectivamente canalizados para melhorias concretas no sector, a medida pode gerar desconfiança tanto entre operadores como entre visitantes. A credibilidade institucional é um activo essencial quando se pretende afirmar um destino emergente. Sem confiança, não há investimento nem retorno.
Angola tem, sem dúvida, potencial para se afirmar no mapa turístico africano e internacional. Possui paisagens únicas, um património cultural rico e uma identidade forte. No entanto, ainda há muito por fazer para transformar esse potencial em procura consistente e sustentável. Criar uma taxa turística neste momento parece inverter as prioridades.
Primeiro é preciso melhorar, organizar, promover e consolidar. Só depois se poderá ponderar a introdução de uma contribuição adicional. Caso contrário, corre-se o risco de afastar visitantes num momento em que o país deveria estar a atraí-los com mais competitividade, melhor qualidade e maior visão estratégica. Desenvolvimento faz-se com visão e coragem, não com atalhos fiscais.
Birmingham, 19 de Fevereiro de 2026.
Este post já foi lido 624 vezes.
