Guiné-Bissau: A “Somália da CPLP”?

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As imagens de militares fortemente armados, com o rosto coberto, cercando a residência do político Fernando Dias, sem qualquer mandado judicial, são mais do que um acto isolado de intimidação. São um símbolo devastador de um Estado que deixou de funcionar segundo regras democráticas e passou a obedecer à lógica dos grupos armados. Quando forças armadas actuam à margem da lei, sem transparência e sem prestação de contas, não estamos perante autoridade — estamos perante coerção. E um país governado pelo medo não é uma democracia; é um território capturado.

Dizer que a Guiné-Bissau se está a transformar na “Somália da CPLP” não é um exagero retórico: é um grito de alerta. Quando diferentes grupos armados demonstram capacidade de cercar casas, intimidar opositores e agir sem respaldo judicial, o que se instala é a fragmentação do poder. A autoridade deixa de ser institucional e passa a ser territorial. Quem tem armas manda. Quem não tem, cala. Este é o retrato mais cruel de um Estado fragilizado.

A fuga do anterior Presidente, independentemente das leituras políticas que cada um possa fazer, abriu uma crise de legitimidade profunda. A saída abrupta do chefe de Estado deixou um vazio que rapidamente foi ocupado por forças que não respondem a mecanismos civis de controlo. Num país com um histórico de instabilidade política e interferência militar, cada novo golpe não é apenas uma ruptura institucional — é mais uma camada de descrença acumulada no coração do povo.

O mais doloroso é o impacto psicológico sobre os cidadãos comuns. O comerciante que abre a sua banca sem saber se haverá confrontos nas ruas. O estudante que teme que o calendário escolar seja interrompido. A mãe que escuta rumores de tiros e corre para proteger os filhos. Não se trata apenas de disputa pelo poder; trata-se da erosão diária da confiança social. Um país vive de expectativas. E quando a expectativa dominante é o medo, a nação adoece.

A Guiné-Bissau merece mais do que ciclos repetidos de instabilidade. Merece instituições que funcionem, forças de segurança subordinadas à lei e lideranças políticas que coloquem o interesse nacional acima das ambições pessoais ou corporativas. Nenhum grupo armado, por mais organizado que esteja, substitui a legitimidade que nasce do voto e da Constituição. Nenhuma intervenção à margem da lei constrói estabilidade duradoura.

Este é um momento de verdade histórica. Ou o país reafirma o primado da legalidade e da ordem constitucional, ou continuará refém de episódios que minam a sua credibilidade interna e internacional. O povo guineense já demonstrou inúmeras vezes resiliência e coragem. Mas resiliência não pode ser confundida com resignação.

A Guiné-Bissau não pode aceitar tornar-se um Estado onde o silêncio é imposto pelo cano de uma arma. Um país não se constrói com cercos nocturnos e rostos encapuzados. Constrói-se com justiça, transparência e respeito pela dignidade humana. E enquanto houver um único guineense disposto a defender esses princípios, ainda haverá esperança de romper este ciclo e devolver ao país o rumo que merece.

Birmingham, 13 de Fevereiro de 2026.

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