Observadores da UE nas eleições de 2027: Imagina “ganhar” uma eleição e a UE vir dizer-te que perdeste.

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Malundo Kudiqueba

Historicamente, todas as eleições em Angola tiveram observadores internacionais, cujos relatórios, positivos ou críticos, tornaram-se parte do ritual. Mas a verdade é dura: vivemos numa dependência constante dos outros para nos sentirmos legitimados. A cada eleição, pergunta-se: será que em 2027 vai ser diferente ou continuaremos a depender de carimbos estrangeiros para validar o nosso próprio processo democrático?

Há algo profundamente desconcertante nesta prática. Quando ganhas, precisas que alguém de fora venha confirmar; quando perdes, precisas que alguém da UE te diga que perdeste. E, pior ainda, há casos em que os mesmos observadores, por interpretações diferentes, podem contradizer-se: ganhaste, mas eles dizem que perdeste. Qual é então o verdadeiro valor desses observadores?

Convidar a União Europeia para supervisionar eleições em África revela um complexo de inferioridade patente, que muitas vezes não é debatido publicamente. É como se só acreditássemos na nossa própria democracia quando alguém europeu nos dá o aval. Mas nunca vimos políticos africanos convidados para supervisionar eleições na Europa.

Além disso, o argumento da transparência esconde outra realidade: a desconfiança nas instituições africanas. É humilhante admitir que precisamos da bênção de outros para validar aquilo que nos pertence por direito. Cada eleição deveria ser um sinal da nossa maturidade política, não uma demonstração de dependência externa.

Olhando para 2027, a pergunta não é se teremos observadores internacionais, mas se continuaremos a aceitar um papel submisso que mina a nossa soberania. Devemos refletir: não é democracia quando só alguns validam e outros nunca são convidados. Angola pode e deve confiar na sua capacidade de organizar eleições justas, reforçando a transparência interna, fortalecendo instituições e capacitando cidadãos a fiscalizarem o processo eleitoral. A legitimidade não deve vir de fora, mas do próprio povo.

Enquanto continuarmos a depender da validação externa, seremos eternamente espectadores da nossa própria democracia, à espera de um veredicto estrangeiro. Talvez 2027 seja a oportunidade de mudar, de provar que Angola pode caminhar com as suas próprias pernas. E se conseguirmos, não precisaremos de ninguém para nos dizer quem ganhou e quem perdeu.

Birmingham, 10 de Fevereiro de 2026.

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