Mira Amaral usou um dos instrumentos mais eficazes e mais perigosos da política contemporânea: o insulto institucional. Não levantou a voz. Não atacou directamente. Não pronunciou o nome de André Ventura como alvo. E, ainda assim, desqualificou-o por completo. Quase ninguém reparou. E é precisamente aí que está o problema.
Quando Mira Amaral afirma apoiar António José Seguro por ser “sério”, “moderado” e com “perfil presidencial”, não está apenas a elogiar um candidato. Está a fazer algo mais subtil e mais corrosivo: está a dizer, sem o dizer, que Ventura não é sério, não é moderado e não tem perfil para Presidente da República. É um ataque feito com luvas de veludo, mas continua a ser um ataque.
Ao falar em “perfil”, o subtexto é brutal. Insinua que Ventura não tem dimensão de Estado, que não sabe representar o país, que não tem estatura para Belém. Não é uma crítica de ideias, nem um confronto político saudável. É uma tentativa de exclusão simbólica: definir quem é “digno” e quem não é.
Este tipo de discurso é socialmente aceitável, por isso passa despercebido. Não choca. Não gera indignação imediata. Mas corrói. Porque destrói reputações sem debate, sem contraditório e sem assumir o ataque. É a arte de deslegitimar mantendo as mãos limpas.
Mira Amaral não discutiu propostas, visões ou projectos para o país. Limitou-se a traçar uma linha invisível entre os que pertencem ao “clube” e os que devem ficar à porta. E na política, poucas armas são tão eficazes como esta: não combater o adversário, mas negar-lhe legitimidade.
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