João Lourenço tinha razão: riqueza e pobreza são realidades relativas

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Malundo Kudiqueba

Em Angola, quando se fala de pobreza, pensa-se quase exclusivamente em escassez monetária. Quando se fala de riqueza, imagina-se imediatamente contas recheadas e bens materiais. Essa visão limitada empobrece o próprio debate. Como profissional que observa o comportamento humano e social, considero que existem vários tipos de pobreza e várias formas de riqueza algumas visíveis, outras silenciosas, mas igualmente devastadoras.

Quando João Lourenço afirmou que a fome é relativa, o debate público empobreceu-se ao reduzir a sua declaração a uma questão exclusivamente financeira. Em Angola, insiste-se em medir pobreza e riqueza apenas pelo dinheiro, ignorando dimensões igualmente determinantes da vida humana, como a saúde, a dignidade, o conhecimento, os valores e a estabilidade social. Essa leitura limitada não apenas distorce a mensagem, como também impede uma reflexão séria sobre as múltiplas formas de carência que afetam a sociedade. Reduzir tudo ao dinheiro é escolher a interpretação mais fácil e evitar o confronto com uma realidade mais complexa, onde a verdadeira pobreza muitas vezes não se vê no bolso, mas no corpo, na mente e no funcionamento das instituições.

Uma pessoa pode ter dinheiro e ainda assim ser pobre. Se não tem saúde, é pobre. O dinheiro não compra um corpo saudável nem devolve anos de vida perdidos. Pode pagar hospitais, mas não garante cura. Da mesma forma, alguém pode ter dinheiro e ser pobre em valores, pobre em empatia, pobre em carácter. Há ricos financeiramente falidos emocionalmente, incapazes de manter relações saudáveis ou de encontrar sentido na vida.

Existe também a pobreza intelectual: pessoas com recursos, mas sem pensamento crítico, presas a dogmas e incapazes de questionar a realidade. Há pobreza espiritual, quando se vive sem propósito, sem ética e sem responsabilidade social. E há pobreza institucional, quando o Estado existe, mas não funciona, quando há leis, mas não há ordem, quando há liberdade, mas falta disciplina.

Por outro lado, há riqueza que não se mede em dinheiro. Há quem seja financeiramente modesto, mas rico em saúde, em dignidade, em valores, em família e em consciência tranquila. Essa riqueza sustenta o ser humano quando o dinheiro falha.

Quando João Lourenço disse que a fome é relativa, tocou numa verdade incómoda: a miséria humana assume muitas formas. Ignorar isso é escolher a leitura fácil. Enfrentar essa complexidade é o primeiro passo para um debate sério sobre desenvolvimento, justiça social e futuro.

A maior riqueza de um povo não é o dinheiro na conta. Quando uma sociedade ignora outras formas de riqueza como a saúde, a educação, os valores, a disciplina e o sentido de responsabilidade colectiva acaba por continuar pobre, mesmo quando o dinheiro existe. Em Angola, essa confusão ajuda a explicar por que muitos, mesmo dispondo de recursos financeiros, continuam pobres de forma estrutural e profunda.

Birmingham, 29 de Janeiro de 2026.

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