Escrevi este texto na sequência dos insultos que o músico C4 Pedro/Mpetelo tem vindo a sofrer ultimamente.
O maior inimigo do angolano não é o europeu, não é o americano, não é o estrangeiro.
O maior inimigo do angolano é a mentalidade do próprio angolano.Uma mentalidade colonizada.
Uma mentalidade submissa.
Uma mentalidade que rejeita a si mesma enquanto procura validação, aceitação e aprovação de fora.
Malundo Kudiqueba
Em Angola, ainda hoje, muitos pais estranham quando alguém decide dar ao filho um nome africano, um nome ancestral, um nome que carrega história, identidade e memória. Para muitos, atribuir um nome europeu ao filho tornou-se sinónimo de desenvolvimento, de modernidade, de status social. Como se o progresso tivesse nacionalidade. Como se a dignidade tivesse sotaque estrangeiro.
O mais grave é a contradição: o europeu não atribui nomes africanos aos seus filhos para ser respeitado. O americano não abandona a sua identidade para parecer civilizado. O árabe mantém os seus nomes, a sua cultura, a sua língua, e por isso mesmo é respeitado. O orgulho nunca foi um obstáculo ao desenvolvimento. Pelo contrário: é a base dele.
Recentemente, muitos “angolanos” atacaram o músico C4 Pedro por adoptar nomes dos nossos antepassados. Atacaram como se tivessem autoridade sobre escolhas individuais. Chamaram de “atraso” aquilo que é raiz. Ridicularizaram aquilo que é identidade. Isso não é apenas triste — é revelador. Revela um profundo complexo de inferioridade, uma alienação cultural preocupante.
Antes da chegada dos portugueses, os nossos antepassados já tinham nomes. Nomes com significado. Nomes ligados à natureza, à espiritualidade, à história e à organização social. A angolanidade existia antes da colonização. Rejeitar isso, chamar isso de atraso e querer impor nomes europeus a toda a sociedade é um verdadeiro suicídio cultural.
Quando um povo passa a odiar os seus próprios símbolos, ele começa a desaparecer — não fisicamente, mas espiritualmente.
E um povo sem espírito é fácil de dominar, mesmo depois da independência política.
O angolano, infelizmente, tornou-se um dos povos mais alienados do mundo. Muitos acreditam que para serem respeitados, aceites ou valorizados precisam se parecer com o europeu, falar como o europeu, chamar-se como o europeu.
Como profissional que estuda o comportamento humano e a sociedade, afirmo sem hesitação: uma sociedade que rejeita a sua identidade vive em conflito interno permanente. E esse conflito manifesta-se em ódio ao diferente, em ataques gratuitos, em desprezo pela própria cultura.
A minha solidariedade é total ao C4 Pedro. Ele não está a fazer nada de errado. Pelo contrário: está a provocar uma reflexão necessária. Os ataques que sofre não dizem nada sobre ele, dizem tudo sobre quem ataca. Pessoas que confundem identidade com atraso e submissão com progresso.
Angola só será verdadeiramente livre quando o angolano fizer as pazes consigo mesmo.
Quando deixar de ter vergonha do seu nome.
Quando perceber que não é o nome europeu que o dignifica, mas a consciência de quem ele é.
Desenvolvimento sem identidade é apenas imitação.
E um povo que apenas imita nunca lidera a sua própria história.
C4Pedro/Mpetelo estamos juntos. Envio um forte abraço.
Birmingham, 07 de janeiro de 2026.
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