Há uma pergunta que poucos se atrevem a fazer, mas que merece ser colocada sem rodeios: terá Donald Trump criado, em Nova Iorque, uma espécie de tribunal penal internacional informal para julgar e punir os seus homólogos? Muitos não sabem — ou fingem não saber — por que razão Nicolás Maduro foi levado para Nova Iorque e tratado como um criminoso internacional. Convém esclarecer desde já: Maduro não foi perseguido por ser ditador. Se assim fosse, o mundo estaria cheio de aviões a transportar líderes autoritários para os Estados Unidos.
Ditadores há muitos. Alguns, inclusive, bem mais perigosos, sanguinários e desestabilizadores do que Maduro. No entanto, esses continuam a ser recebidos com honras de Estado, apertos de mão e contratos milionários. A diferença não está na democracia, nem nos direitos humanos. Está, pura e simplesmente, no petróleo.
Maduro foi visado porque a Venezuela possui uma das maiores reservas petrolíferas do mundo e porque ousou manter uma política de soberania energética que contraria os interesses estratégicos dos Estados Unidos. A sua “culpa”, aos olhos de Washington, não foi governar mal — foi não governar para eles.
Se a intenção fosse realmente fazer justiça internacional, então a coerência exigiria algo muito simples: perseguir todos, sem excepção. Começando, desde logo, pelo próprio Donald Trump, cujo historial político, empresarial e judicial está longe de ser imaculado. Um homem com processos, acusações, polémicas fiscais e éticas dificilmente pode assumir o papel de juiz moral do mundo.
A justiça que escolhe alvos conforme interesses económicos e geopolíticos não é justiça. É instrumento de poder. É chantagem diplomática. É colonialismo jurídico disfarçado de legalidade internacional.
Não pode haver justiça selectiva. Ou há princípios universais aplicáveis a todos, ou então estamos apenas perante mais uma encenação onde os fortes julgam os fracos, enquanto permanecem intocáveis.
Se o mundo quer combater ditaduras, corrupção e abusos de poder, que o faça com seriedade, imparcialidade e coragem. Caso contrário, Nova Iorque não passa de um palco, e este “tribunal” improvisado não passa de mais uma arma política ao serviço dos interesses de sempre.
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