Universidade da Vida: Cadeira obrigatória com as regras da pobreza

Marginal luanda

Regra nº 1 – Arranje desculpas, culpe os outros e garanta que nada muda. Na Universidade da Vida, a pobreza não é apenas falta de dinheiro. É, antes de tudo, uma questão de mentalidade. A primeira regra é simples e eficaz: arranje sempre uma desculpa. Se está pobre, a culpa é do colonialismo.
Se falhar na vida, a culpa é do governo.
Se não avançar, a culpa é do sistema.
Se nada muda, culpa a oposição, ou culpa a sociedade, o patrão, a família, o vizinho, o clima ou o azar.

Quem vive de desculpas nunca precisa de soluções.

Culpar os outros é confortável. Dá abrigo emocional. Dá sensação de justiça. Mas também mata qualquer hipótese de crescimento.
Porque quem aponta o dedo para fora recusa olhar para dentro.

A seguir, reclame. Reclame muito. Reclame sempre.
Reclame do país, da cidade, do transporte, do salário, da sorte, da vida.
Faça da reclamação um estilo de vida.

A reclamação constante dá a ilusão de consciência, mas produz zero transformação.

Depois, foque-se obsessivamente na negatividade.
Veja problemas onde há oportunidades.
Veja ameaças onde há mudanças.
Veja falhas em tudo o que exige esforço.

Quem treina o olhar para o negativo fica cego para o possível.

Tenha medo da mudança.
A mudança exige risco.
E o risco exige responsabilidade.
Por isso, diga: “sempre foi assim”, “não vale a pena”, “isso não é para nós”.

O medo da mudança é a algema invisível da pobreza.

Pare de aprender.
Acredite que já sabe tudo.
Desconfie de livros, de ideias novas, de quem pensa diferente.
Transforme a ignorância em identidade.

 Quem pára de aprender começa imediatamente a envelhecer por dentro.

Pense pequeno.
Sonhe baixo.
Estabeleça metas que não assustem ninguém — nem a si próprio.

Pensar pequeno não evita quedas, apenas garante uma vida rasteira.

Ande com pessoas pessimistas.
Gente que ridiculariza sonhos.
Que normaliza o fracasso.
Que chama “realismo” à desistência.

Diz-me com quem andas e dir-te-ei até onde nunca chegarás.

E, por fim, gaste tudo o que tem.
E o que não tem também.
Compre aparência em vez de estrutura.
Status em vez de estabilidade.
Luxo momentâneo em vez de futuro.

 A pobreza adora ostentação porque odeia planeamento.

Esta regra funciona.
Funciona tão bem que mantém gerações inteiras presas ao mesmo ponto, com discursos diferentes e resultados iguais.

A Universidade da Vida é clara:
Quem segue estas regras com disciplina não falha — permanece pobre com convicção.

A pergunta não é se o sistema é injusto. Muitas vezes é.
A pergunta é outra, mais desconfortável:

O que é que você anda a fazer todos os dias para garantir que nada muda?

Na próxima aula, falaremos da Regra nº 2.

Crónica de Malundo Kudiqueba — acantonado algures em Manchester, Reino (Des)Unido.

03.01.2026.

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