Hoje, na política, quem não comunica é governado por quem comunica melhor. Eva Cruzeiro e André Ventura são, neste momento, os políticos portugueses mais seguidos nas redes sociais. Os números são claros e difíceis de ignorar. Eva Cruzeiro lidera destacadamente, com cerca de 1,4 milhões de seguidores no Facebook, enquanto André Ventura surge em segundo lugar com 885 mil seguidores.
Malundo Kudiqueba
Muito abaixo destes valores estão os principais rostos do poder institucional. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, conta com apenas cerca de 62 mil seguidores, e o líder do Partido Socialista, José Luís Carneiro, não ultrapassa os 29 mil. Esta diferença não é apenas estatística. É revelador de algo muito mais profundo.
A política portuguesa continua, em grande parte, a comportar-se como se o centro do poder estivesse exclusivamente no Parlamento e nos gabinetes. Mas a realidade é outra. O novo palco do poder é digital, e quem não domina esse espaço fala cada vez mais sozinho.
As redes sociais transformaram-se no principal canal de contacto entre políticos e cidadãos, sobretudo entre os mais jovens e os mais desencantados com a política tradicional. Quem consegue atenção constante, cria narrativa. Quem cria narrativa, molda percepções.
Hoje, a influência política começa no ecrã do telemóvel, não no plenário.
O caso de Eva Cruzeiro é particularmente revelador. Liderar a lista de seguidores com 1,4 milhões, num país como Portugal, não é um detalhe menor. Trata-se de um fenómeno que deve ser analisado com seriedade. O seu crescimento não se explica apenas por carisma pessoal ou estratégia individual.
André Ventura construiu a sua base digital ao longo de vários anos, apostando numa comunicação de confronto permanente, linguagem directa e forte presença mediática. O seu número de seguidores confirma algo já conhecido: a política-espetáculo funciona no ambiente digital.
Independentemente das concordâncias ou discordâncias ideológicas, Ventura percebeu cedo que, na era das redes sociais, a visibilidade é uma forma de poder.
Os números de Luís Montenegro e José Luís Carneiro revelam uma fragilidade preocupante. Não se trata de vaidade digital, mas de capacidade de mobilização e comunicação.
Um primeiro-ministro com pouco mais de 60 mil seguidores e o líder do maior partido da oposição com menos de 30 mil mostram que o poder governa, mas não conversa. Decide, mas não envolve. Comunica, mas não cria ligação.
Um poder que não cria comunidade acaba refém de quem a sabe mobilizar.
Convém deixar claro: seguidores não são votos automáticos, e popularidade digital não substitui competência governativa. No entanto, ignorar o impacto das redes sociais seria um erro grave.
As redes moldam o debate público, definem temas, normalizam discursos e criam líderes antes das eleições. Quem entra numa campanha já seguido parte em vantagem simbólica.
O sucesso digital de Eva Cruzeiro e André Ventura não é o problema central da política portuguesa. O verdadeiro problema é a incapacidade dos partidos tradicionais de compreenderem que o silêncio digital já não é neutralidade — é ausência.
Enquanto o poder institucional continuar a comunicar pouco, mal ou tarde demais, outros ocuparão o espaço. Com mais seguidores, mais influência e maior capacidade de moldar a opinião pública.
Na política contemporânea, quem não aprende a comunicar perde influência antes mesmo de perder eleições.
Birmingham, 30 de dezembro de 2025.
Este post já foi lido 2721 vezes.
