Há histórias que chegam do Brasil e nos atravessam como um murro no estômago. Não pela novidade — infelizmente já nada disto é novo — mas pela brutalidade crua com que a violência se repete, quase sempre com o mesmo argumento: a incapacidade de aceitar o fim.
No Rio de Janeiro, um homem foi detido depois de transformar a separação num acto de barbárie. Incapaz de lidar com o término da relação, decidiu usar uma motocicleta como arma. Atropelou a ex-mulher e, ao perceber que ela ainda respirava, fez o que a covardia costuma fazer quando se sente contrariada: desceu do veículo e continuou o ataque com socos e pontapés, como se o corpo da vítima fosse uma extensão da sua frustração.
A mulher sobreviveu. Teve forças para denunciar. Horas depois, o agressor foi localizado e preso na zona Oeste da cidade, após a queixa ter sido formalizada na Delegacia de Atendimento à Mulher. A justiça chegou, mas sempre depois do dano, sempre depois da dor.
Este não é apenas um caso policial. É um retrato social. Um espelho de uma masculinidade doente que confunde amor com posse, relação com domínio, fim com humilhação. Quando uma mulher diz “acabou”, alguns homens ouvem “provocação”. Quando ela tenta seguir, eles interpretam como desafio.
O mais inquietante é saber que este episódio não é excepção. É rotina. Repete-se nos bairros pobres e nas zonas nobres, no Brasil, em Portugal, em Angola, em todo o lado. Muda o cenário, muda o sotaque, mas a violência é a mesma.
A prisão do agressor é necessária. Mas não chega. Enquanto continuarmos a educar homens para o controlo e mulheres para o medo, a crónica de hoje será apenas o rascunho da tragédia de amanhã.
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