O mais recente golpe de Estado na Guiné-Bissau volta a empurrar o país para o ciclo de instabilidade que teima em não desaparecer. O Presidente foi deposto, as eleições suspensas, as fronteiras encerradas e os media silenciados. Tudo isto numa só madrugada, numa operação rápida, cirúrgica e profundamente reveladora. Mas se os derrotados já estão claramente identificados — o povo da Guiné-Bissau — a grande questão que se levanta é: quem são os verdadeiros vencedores deste golpe?
Malundo Kudiqueba
Em qualquer golpe, o controlo imediato é sempre o maior prémio.
Com a suspensão do processo eleitoral e a dissolução de facto das instituições civis, as Forças Armadas tornam-se o novo árbitro absoluto da ordem política. O fecho das fronteiras e dos media serve dois objetivos simples: impedir resistência interna e controlar a narrativa. Quem controla a informação, controla o país.
Quem controla as fronteiras, controla a circulação de pessoas, aliados e adversários.
Ao assumirem o poder, mesmo sob o pretexto de “restaurar a ordem”, os militares tornam-se os primeiros e principais beneficiários da nova realidade política. Nenhum golpe nasce apenas da vontade de um general.
Há sempre interesses em disputa — muitos deles inalcançáveis à vista pública.
O discurso militar que justificou a tomada de poder, alegando tentativas de manipulação eleitoral envolvendo políticos, estrangeiros e um “barão da droga”, levanta mais perguntas do que respostas. E quando as sombras são tantas, fica evidente que há atores económicos, grupos de influência e redes de poder que ganham espaço num ambiente de opacidade e ausência de escrutínio.
Para esses grupos — nacionais ou internacionais — um país onde a democracia fica suspensa é um terreno fértil: Menos fiscalização, menos imprensa livre, menos pressão popular, mais margem para negociar na penumbra. São os vencedores silenciosos, aqueles que avançam enquanto o país recua.
Embora Umaro Sissoco Embaló seja o rosto mais visível da queda, não é o único.
Para muitos setores que desconfiavam do processo eleitoral ou temiam um resultado desfavorável, o golpe oferece uma saída inesperada:
O atual cenário político que lhes devolve espaço para renegociar alianças, influenciar a transição e preparar o terreno para um cenário futuro controlado.
Perde o direito ao voto.
Perde a voz, com os media encerrados.
Perde movimento, com as fronteiras fechadas.
Perde liberdade, porque crises políticas abrem sempre portas para abusos.
Perde esperança, porque todos os ciclos interrompidos atrasam a construção de um Estado estável, funcional e democrático.
As famílias comuns, os comerciantes, os jovens desempregados, as mulheres que sustentam casas inteiras — são eles que pagarão o preço mais alto.
Sempre foram.
O golpe na Guiné-Bissau ainda está a ser digerido, mas as lições são antigas:
os militares ganham o poder, os interesses obscuros ganham terreno, as elites ganham tempo
e o povo perde o futuro.
Num país que há décadas tenta romper com o fantasma da instabilidade crónica, este golpe é mais uma prova de que a democracia guineense continua frágil, vulnerável e facilmente interrompida.
Os vencedores já se movimentam.
O derrotado já sofre.
E a Guiné-Bissau, mais uma vez, fica suspensa — entre a esperança adiada e o medo do que vem a seguir.
Birmingham, 27 de novembro de 2025.
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