O Secretário-Geral das Nações Unidas voltou a defender, esta segunda-feira, a necessidade de uma maior representação africana nas estruturas internacionais, incluindo a inclusão do continente como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Falando em Luanda, na abertura da Cimeira União Africana–União Europeia, António Guterres afirmou que África e Europa têm hoje “a oportunidade de corrigir injustiças históricas”.
Segundo o líder das Nações Unidas, esse processo passa, em primeiro lugar, por ampliar o espaço político das nações africanas e por romper com “antigos modelos de exploração de recursos”. Guterres sublinhou que África possui abundantes recursos naturais e uma população jovem e dinâmica, enquanto a Europa detém capital e know-how tecnológico — combinação que, a seu ver, deve orientar investimentos e acções conjuntas na área climática.
O Secretário-Geral reforçou também a necessidade urgente de reformar “a arquitectura financeira global”, que considerou “injusta e ineficaz”.
Uma multipolaridade interligada
No discurso, Guterres defendeu uma multipolaridade assente numa rede inclusiva de cooperação que abranja comércio, desenvolvimento, sistemas financeiros e concertação política.
O sucesso desse novo cenário multipolar, alertou, depende de instituições multilaterais robustas e adaptáveis, fundamentais para garantir estabilidade e equilíbrio global.
Para Guterres, a parceria entre a Europa e África está particularmente bem posicionada para constituir um dos pilares centrais desta nova ordem mundial. A realidade emergente, disse, é uma oportunidade para reparar injustiças de longa data e construir um sistema mais equitativo, dando voz a países que historicamente ficaram fora dos centros de decisão.
O Secretário-Geral destacou três áreas essenciais onde a cooperação entre os continentes pode ser decisiva: desenvolvimento sustentável, combate às alterações climáticas e promoção da paz.
Reforma financeira e desenvolvimento
No capítulo do desenvolvimento sustentável, Guterres voltou a insistir na reforma da arquitectura financeira global. Para ele, esta transformação implica eliminar o ciclo vicioso do endividamento, reforçar em três vezes a capacidade de financiamento dos bancos multilaterais de desenvolvimento e garantir maior influência dos países em desenvolvimento nas instituições financeiras internacionais.
Clima: da transição energética às oportunidades
Guterres salientou a importância estratégica dos minerais críticos presentes em África, cuja procura deverá triplicar até 2030 devido à transição para energias limpas.
Afirmou que, com formação adequada e acesso ao financiamento, o continente tem condições para protagonizar uma verdadeira revolução energética renovável. Contudo, advertiu que esse avanço só será possível com uma “transição justa”, apoiada pela cooperação internacional e impulsionada pela electrificação africana.
Apelou ainda para que os países desenvolvidos e os seus parceiros cumpram este ano os compromissos assumidos em matéria de financiamento para adaptação climática, e que trabalhem no sentido de triplicar esses recursos até 2035, concretizando as decisões previstas para a COP29 em Baku.
“A África tem recursos e uma juventude dinâmica; a Europa dispõe de capital e tecnologia. A acção climática é uma obrigação, mas entre os dois continentes pode tornar-se numa grande oportunidade”, frisou.
Financiamento para a paz em África
No domínio da paz e segurança, Guterres abordou os conflitos que continuam a afectar países como o Sudão, Sudão do Sul, Somália, Líbia, Mali e República Democrática do Congo. Defendeu um financiamento estável, flexível e previsível para as operações de paz conduzidas pela União Africana, em linha com a resolução 2719 do Conselho de Segurança.
Recordou ainda que o Pacto para o Futuro, adoptado no ano passado, reforça a necessidade de garantir lugares permanentes para África no Conselho de Segurança — uma medida destinada a corrigir uma “profunda injustiça histórica” e a reforçar a capacidade do órgão de promover a paz no mundo.
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