Num país onde o discurso político se afoga, demasiadas vezes, em suspeitas, ataques frívolos e guerras internas sem fim, o governador do Zaire, Adriano Mendes de Carvalho, protagonizou um dos gestos mais nobres e necessários da vida pública angolana nas últimas quatro semanas. Num momento em que muitos preferem acender fogueiras, ele decidiu erguer pontes. E, em Angola, isso é quase um acto de coragem.
Primeiro, recebeu o líder da UNITA, Adalberto da Costa Júnior, juntamente com a sua delegação, numa visita marcada pela serenidade e pelo respeito institucional. Dias depois, não hesitou em acolher também Rafael Massanga Savimbi, candidato à presidência da UNITA. Ambos foram recebidos na mesma província, com a mesma dignidade, sem discriminações nem receios políticos. Um gesto simples? Talvez. Mas num país onde até cumprimentar o adversário pode ser visto como traição, este gesto torna-se extraordinário.
E como se não bastasse, Adriano Mendes de Carvalho depositou uma coroa de flores na campa de Holden Roberto, fundador histórico da FNLA. Para muitos, isso é apenas um símbolo. Para Angola, é uma lição. É a lembrança de que a história não pertence a um partido, mas ao país inteiro. É o reconhecimento de que os mortos já não lutam — e que os vivos precisam, finalmente, de deixar de lutar uns contra os outros para lutar a favor de Angola.
Num ambiente político onde a crítica se tornou desporto nacional e o insulto substituiu a reflexão, um gesto de reconciliação é uma raridade. E é por isso que deve ser destacado. Porque a reconciliação não se faz com discursos de palanque, mas com atitudes. É importante realçar que no meio do ruído generalizado, alguém teve a ousadia de fazer o que poucos fazem: respeitar a diferença e honrar a memória.
A política angolana não avança porque muitos preferem cultivar inimigos em vez de construir aliados. O país não precisa de heróis armados, precisa de líderes desarmados de ódio. E a reconciliação não é fraqueza — é maturidade.
Birmingham, 18 de novembro de 2025.
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