A mentira é a linguagem oficial da política moderna.

1973. crédito: arquivo/tv globo. ator paulo gracindo na novela o bem amado.

A mentira é simples, leve, doce. A verdade é pesada, amarga e exige trabalho. Por isso, quando um político sobe ao palanque e promete o céu na terra, o povo aplaude. Quando outro sobe e diz que o país está mal e precisa de esforço colectivo, é vaiado. Na política, quem diz a verdade é sempre aborrecido; quem mente é sempre brilhante.

A mentira tem um brilho especial. Quem mente oferece esperança instantânea. Quem diz a verdade oferece frustração imediata. E ninguém quer frustração. A política, portanto, transforma-se num mercado onde o produto mais procurado é a ilusão.

O mais irónico é isto: os políticos mentem porque o povo exige a mentira. Não é apenas uma manobra de sobrevivência — é um contrato tácito. O povo não vota em quem o confronta com a realidade. Vota em quem lhe pinta uma realidade paralela, luminosa, sedutora. No fim de contas, a mentira é a linguagem oficial da política porque a verdade não é popular.

E enquanto o povo preferir o conforto da mentira ao desconforto da verdade, continuaremos a viver numa era em que a política se transforma num espectáculo, o eleitor num fã, e o líder num actor treinado na arte de encantar multidões com promessas que nunca se vão realizar. A grande tragédia das democracias modernas é simples: o povo reclama dos políticos mentirosos, mas pune todos os que tentam ser honestos.

Birmingham, 16 de novembro de 2016.

Foto: Paulo Gracindo – Personagem Odorico Paraguaçu – Bem-Amado.

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