Franz Kafka, esse profeta da lucidez e da angústia, nunca precisou de viver no século XXI para o compreender. A sua ironia continua a ser um espelho cruel do nosso tempo. “Um idiota é um idiota. Dois idiotas são dois idiotas. Dez mil idiotas são um partido político.” A frase, tão brutal quanto verdadeira, não é apenas uma provocação — é um diagnóstico.
Vivemos numa era em que a idiotice já não é um desvio; tornou-se uma instituição. A estupidez ganhou estatuto, bandeira e sede própria. É eleita, aplaudida e reproduzida nas redes sociais com a mesma facilidade com que se partilha um meme. A política deixou de ser o exercício do pensamento para se transformar no espetáculo da ignorância organizada.
Um idiota isolado pode ser inofensivo — talvez até cómico. Dois idiotas já fazem barulho. Mas quando dez mil idiotas se unem, votam, marcham e acreditam que estão a mudar o mundo, nasce um movimento, uma ideologia, uma seita… e, inevitavelmente, um partido político.
Kafka sabia que a burocracia e a obediência cega são as incubadoras da estupidez coletiva. A multidão tem o poder de transformar o absurdo em normalidade. É assim que nasce o perigo: quando o disparate se veste de lógica, quando a ignorância ganha microfone e quando o senso comum é substituído pela emoção primitiva das massas.
Os partidos de hoje, em grande parte, deixaram de ser escolas de pensamento para se tornarem clubes de autoengano. Discutem tudo, menos ideias. Prometem tudo, menos verdade. E defendem tudo, menos coerência. A maioria já não se orienta por convicções, mas por sondagens. Não serve o povo — serve-se do povo.
O idiota moderno é sofisticado. Usa gravata, tem assessores e perfis verificados nas redes sociais. Sabe falar sem dizer nada e sabe mentir com uma serenidade quase poética. Vive da manipulação do medo e da esperança. Kafka teria rido — ou chorado — ao ver como a mediocridade aprendeu a sorrir para as câmaras.
A idiotice, quando se multiplica, deixa de ser ofensiva e passa a ser “respeitável”. É o número que legitima o disparate. Mil vozes a repetir a mesma mentira tornam-na uma verdade conveniente. O perigo não está no idiota em si, mas na quantidade de idiotas organizados.
O verdadeiro antídoto contra essa epidemia não é o ódio — é o pensamento. Pensar é o último ato de rebeldia numa sociedade que prefere slogans a ideias. Questionar é o novo crime. E manter-se lúcido é quase um ato de resistência política.
Kafka, se vivesse hoje, talvez dissesse: “O problema não é o castelo. É quem o construiu e quem ainda acredita que ele é real.”
Enquanto os idiotas continuarem a reunir-se em nome da “mudança”, e os inteligentes permanecerem calados em nome da prudência, o absurdo continuará a governar o mundo. E nós, os que ainda pensamos, seremos sempre estrangeiros num país de idiotas organizados.
Birmingham, 10 de novembro de 2025.
Malundo Kudiqueba.
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