Todas as semanas, em Portugal, uma mulher é agredida ou morta pelo ex-marido, namorado ou companheiro. A repetição tornou-se rotina. As histórias são quase sempre idênticas: ela quis sair, ele não aceitou. Ela procurou liberdade, ele respondeu com violência. E o país volta a perguntar-se: porque é que o homem português continua a matar a ex-mulher?
Segundo dados da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), em 2023 foram registados 28 homicídios em contexto de violência doméstica, dos quais 21 tiveram mulheres como vítimas. Só nos primeiros nove meses de 2024, já morreram 15 mulheres às mãos de atuais ou ex-companheiros. O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) indica ainda que, em 2023, houve 30 461 participações de violência doméstica, um aumento face ao ano anterior, sendo 83% dos agressores homens.
De acordo com o Instituto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE), entre 2014 e 2022, 83% das vítimas de homicídio por parceiro íntimo em Portugal eram mulheres — 44 mulheres assassinadas em 53 homicídios conjugais. E talvez o dado mais preocupante: apenas 13% das denúncias de violência doméstica resultam em condenações, segundo a AMAN Alliance.
Estes números mostram que o problema é estrutural. O homem português não mata por amor, mata por poder. Não é o coração que o move, é o controlo perdido. A mulher que decide sair não é vista como alguém livre, mas como uma propriedade que escapou.
Portugal ainda vive sob a sombra do patriarcado. A linguagem quotidiana — “minha mulher”, “quem manda lá em casa sou eu” — revela um pensamento antigo: o da posse masculina. Quando a mulher se emancipa, o homem que foi educado para dominar sente-se diminuído. A separação, para ele, não é apenas o fim de uma relação; é o colapso da sua identidade.
Como escreveu o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “vivemos numa sociedade que ensina os homens a dominar e não a sentir”. O homem português aprendeu a não chorar, a não admitir fraqueza, a não falar da dor. Quando o amor acaba, não sabe elaborar o luto — transforma-o em raiva.
Há, também, um fenómeno contemporâneo: a crise da masculinidade tradicional. As mulheres portuguesas são hoje mais instruídas, mais independentes e mais autónomas financeiramente do que nunca. Muitos homens, sobretudo aqueles com insegurança social ou económica, sentem-se ameaçados.
A perda da companheira é vista como a perda do último espaço de autoridade. E, no desespero de restabelecer o poder, alguns recorrem à violência.
A violência doméstica, nestes casos, não é um ato de loucura momentânea; é a consequência previsível de um modelo social que ensina o homem a controlar e a mulher a suportar.
Durante décadas, a sociedade portuguesa protegeu o agressor com um ditado: “entre marido e mulher, não se mete a colher”. Essa cultura do silêncio fez escola.
Hoje, muitas mulheres continuam sem denunciar, por medo ou desconfiança no sistema. E quando denunciam, enfrentam um labirinto judicial lento e ineficaz. O resultado é uma sensação de impunidade que incentiva a reincidência.
A violência raramente começa com o murro. Começa com o tom de voz, com o controlo subtil, com o “não saias assim vestida”, com o “se me deixares, eu acabo contigo”. Cada ameaça ignorada é um aviso não ouvido.
A solução não está apenas nas leis, mas na educação. É preciso ensinar os rapazes a lidar com a rejeição, com a perda, com o “não”. Ensinar que amor não é posse e que o fim de uma relação não é o fim da vida.
Portugal tem leis modernas, mas falta-lhe humanidade emocional. É nas escolas e nas famílias que se trava a batalha mais importante — a de criar homens capazes de amar sem dominar.
Enquanto continuarmos a criar homens que confundem autoridade com amor e mulheres que aprendem a sobreviver em silêncio, o ciclo continuará.
E continuaremos a descobrir, tragicamente, que o lugar mais perigoso para muitas mulheres portuguesas não é a rua — é a casa que decidiram deixar.
Malundo Kudiqueba
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