O presidente João Lourenço tem vindo a condecorar diversas personalidades nacionais, mas as distinções, em vez de unir o país num gesto de reconhecimento, abriram uma ferida: a do valor moral contra o valor monetário. Muitos recusaram as medalhas atribuídas pelo Presidente João Lourenço, mas sejamos honestos — a recusa não foi, na maioria dos casos, por convicção moral. Foi por ausência de valor monetário. Se essas mesmas medalhas viessem acompanhadas de dois milhões de dólares, ninguém as teria rejeitado. Nem um só. A ética teria sido engolida pela conta bancária. Porque, na verdade, o problema não está no valor moral das medalhas, mas no valor monetário que não as acompanhou.
Malundo Kudiqueba
As medalhas deveriam representar mérito, patriotismo e serviço ao país. Mas num país onde o mérito raramente paga as contas e a honra não enche o frigorífico, uma condecoração sem recompensa financeira soa a gesto simbólico sem substância. Muitos olharam para as medalhas e viram nelas não um reconhecimento, mas uma lembrança de que o mérito, em Angola, é gratuito — e o gratuito, infelizmente, perdeu prestígio.
Alguns transformaram a recusa em bandeira moral, mas a verdade é que não rejeitaram por valores — rejeitaram por falta de valor. Se o mérito viesse com cifrões, a consciência calar-se-ia em segundos. A honra teria lugar reservado na parede, e a moral, emoldurada ao lado do comprovativo bancário.
O país vive hoje uma inversão simbólica: as medalhas sem dinheiro valem menos que o silêncio com bolso cheio. O reconhecimento deixou de ser espiritual — passou a ser contabilístico.
Mas não se trata apenas de criticar quem aceitou ou quem recusou. Trata-se de entender o que isto revela sobre nós: uma nação onde o prestígio precisa de preço para ter peso. Não estou contra quem recebeu, nem contra quem recusou. Estou contra a hipocrisia. No fundo, o Presidente entregou medalhas, mas o que os angolanos realmente queriam era dinheiro.
Wolverhampton, 27 de Outubro de 2025
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