O maior partido da oposição em Angola não é a UNITA. É a comunidade internacional. Foi ela que, através da pressão diplomática, da observação eleitoral e da narrativa global sobre direitos humanos e democracia, facilitou a tarefa à UNITA. Criou o ambiente, abriu o espaço, e fez soar o alarme sobre os limites do poder em Luanda.
Malundo Kudiqueba
Mas, ironicamente, a UNITA não soube tirar proveito dessa oportunidade histórica. A comunidade internacional preparou o palco — e a UNITA esqueceu-se de ensaiar o papel.
As condições de vida que os angolanos enfrentam — miséria, pobreza, desemprego e corrupção endémica — seriam, em qualquer outro país, o combustível para uma revolta social de grandes proporções. Em Angola, servem apenas como pano de fundo para discursos vazios e promessas repetidas.
A realidade é dura: a fome já faz oposição, o sofrimento já protesta, e o povo já desistiu. Mas a oposição política continua tímida, calculista, desconectada das ruas. Enquanto isso, o MPLA governa com o conforto de quem sabe que o adversário não tem força nem estratégia para o desalojar.
A UNITA vive o dilema de quem tem o discurso, mas não tem o plano. E em política, sem plano, até o discurso mais inflamado se apaga ao primeiro sopro do poder.
Para que a UNITA alcance o poder, terá de acontecer algo imprevisto, quase sísmico — uma mudança de consciência colectiva, uma ruptura interna no regime, ou um acontecimento externo que abale a estrutura do sistema. Porque, com a oposição actual, o MPLA pode envelhecer no poder sem nunca ter de amadurecer democraticamente.
A história não tem paciência com quem desperdiça oportunidades. E Angola já ofereceu várias à oposição. O problema é que enquanto o povo sofre em silêncio, os partidos da oposição ainda discutem quem deve falar mais alto nas conferências de imprensa.
Em Angola, a verdadeira oposição não está nas urnas — está nas ruas, nas panelas vazias, nas promessas quebradas e na esperança adiada. E é por isso que, no xadrez político angolano, a comunidade internacional continua a ser o maior partido da oposição — porque é o único que, de facto, tem feito o MPLA recuar, ainda que um passo de cada vez.
Manchester, 25 de outubro de 2025.
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