André Ventura voltou a agitar as águas da política portuguesa ao afirmar que Portugal “precisaria de três Salazares para voltar à ordem”. A declaração, feita com a habitual provocação calculada, reabre um debate essencial sobre os limites da democracia e os perigos da nostalgia autoritária. É perigoso romantizar um passado marcado pela repressão e opressão.
Malundo Kudiqueba & Carla Nunes
O líder do Chega garante ser “democrata por natureza”, mas, paradoxalmente, defende que o país necessita de “um novo regime”. A contradição é evidente: quem acredita na democracia não pede a substituição do regime democrático, mas a sua melhoria. Ao justificar as suas palavras, Ventura assegura que não se trata de mera retórica, mas sim de uma convicção — a de que Portugal “está profundamente corroído pela corrupção”.
Ninguém duvida de que a corrupção é um dos maiores males do país. Ela mina a confiança nas instituições, destrói o mérito e alimenta o desencanto dos cidadãos. Contudo, a solução não pode residir na exaltação de figuras autoritárias. Recordar Salazar como símbolo de “ordem” é esquecer que essa ordem foi imposta pelo medo, pela censura e pela supressão das liberdades.
O discurso de Ventura ganha força entre os desiludidos, os que sentem que a democracia já não os representa. Mas o populismo alimenta-se precisamente desse desespero. Quando um político apela a “outro regime”, ainda que sem o nomear, o que propõe é um retrocesso civilizacional. A liberdade é imperfeita, mas é o único espaço onde se pode corrigir o que está mal sem recorrer à repressão.
Portugal não precisa de três Salazares. Precisa, isso sim, de três valores que o Estado Novo negou: justiça, verdade e responsabilidade. É através deles que se combate a corrupção, não com o regresso simbólico de ditadores. Porque entre “pôr o país na ordem” e pôr o país de joelhos vai apenas um passo — e esse passo chama-se esquecimento.
Manchester, 25 de outubro de 2025.
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