Quando Savimbi ficou sem apoio internacional, o Governo legítimo conseguiu derrotá-lo e restaurar a paz. Jonas Savimbi, outrora o líder mais temido e controverso da história política angolana, acabou derrotado não apenas no campo de batalha, mas também no xadrez diplomático internacional. A recente revelação do diplomata canadiano Robert Fowler, antigo presidente do Comité de Sanções sobre Angola durante a presidência canadiana do Conselho de Segurança das Nações Unidas (1999-2000), lança nova luz sobre os bastidores do fim da UNITA armada e do colapso definitivo da rebelião.
Segundo Fowler, foi o trabalho minucioso de um painel de especialistas que reuniu e liderou que permitiu isolar completamente Jonas Savimbi da rede de apoios que o sustentava. “Savimbi ficou sem apoio internacional, sem combustível, armas e munições e, num curto espaço de tempo, o Governo legítimo de Angola conseguiu derrotá-lo no terreno e restaurar a paz e a estabilidade no país”, afirmou o diplomata em entrevista exclusiva que será publicada na íntegra na edição impressa do Jornal de Angola de segunda-feira, 13.
A declaração é significativa porque confirma aquilo que muitos analistas vinham a defender: a derrota militar da UNITA não se deveu apenas à força do Exército angolano, mas também ao cerco diplomático e financeiro imposto pela comunidade internacional. A partir de 1999, o Conselho de Segurança da ONU endureceu as sanções contra Savimbi, proibindo o comércio de diamantes provenientes das zonas sob controlo da UNITA — os chamados diamantes de sangue — e cortando as suas rotas de abastecimento através de países vizinhos.
Robert Fowler foi, nesse contexto, uma figura-chave. O seu relatório, conhecido como Fowler Report, denunciou a cumplicidade de redes internacionais que ajudavam a UNITA a financiar a guerra através do contrabando de diamantes e da compra ilegal de armamento. Essas revelações chocaram diplomatas e governos, levando a uma ação coordenada que isolou definitivamente o movimento rebelde.
Sem o apoio externo que durante anos lhe garantira a sobrevivência, Savimbi viu-se cada vez mais cercado. As suas forças, debilitadas e desmoralizadas, foram gradualmente derrotadas pelo exército angolano. A sua morte, em 2002, selou o fim de uma das guerras civis mais longas e destrutivas do continente africano.
O testemunho de Fowler confirma também o papel determinante que a diplomacia internacional teve na consolidação da paz em Angola. Ao contrário da narrativa frequentemente apresentada apenas em termos militares, a vitória do Governo angolano foi também uma vitória política e diplomática. O isolamento de Savimbi simbolizou a vitória da legitimidade institucional sobre a lógica da guerra e da ambição pessoal.
Mais de duas décadas depois, Angola continua a viver as consequências dessa vitória. A paz foi restaurada, mas o país ainda luta por uma reconciliação verdadeira — uma reconciliação que não se faz apenas com o silêncio das armas, mas com o reconhecimento honesto da história.
A entrevista de Robert Fowler, aguardada com expectativa, poderá ajudar a compreender melhor esse capítulo decisivo da história recente de Angola: o momento em que o mundo decidiu que já não era possível sustentar a guerra, e que Savimbi, o homem que tantas vezes desafiou o impossível, ficaria finalmente sozinho.
Fama & Poder com Jornal de Angola.
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