Depois das eleições de 2027, a FNLA desaparecerá formalmente do Parlamento angolano — e, com ela, uma das mais antigas siglas da luta de libertação nacional. A morte política da Frente Nacional de Libertação de Angola não será um acidente, mas o resultado previsível de décadas de desorganização interna, manipulação externa e um completo divórcio entre a sua direção e o povo angolano.
Malundo Kudiqueba
Hoje, a FNLA é um partido fantasma. Tem um líder que raramente aparece em público, uma estrutura sem vitalidade e um discurso sem eco. Numa era em que os jovens procuram alternativas reais, ideias novas e lideranças inspiradoras, a FNLA permanece prisioneira de um passado que já ninguém sente como presente. A geração que conheceu Holden Roberto, o fundador do partido, já quase não existe — e as novas gerações cresceram sem ouvir sequer o nome FNLA nas ruas, nas universidades ou nas redes sociais.
A responsabilidade por este colapso é partilhada. De um lado, figuras como Lucas Ngonda e os sucessivos líderes que não conseguiram unir o partido, nem construir uma narrativa coerente que o modernizasse. De outro, o próprio regime do MPLA, que ao longo de décadas soube explorar as fragilidades da FNLA, infiltrando divisões internas e lançando campanhas de desinformação que mancharam a imagem do partido.
Nos anos mais tensos do pós-independência, o MPLA soube manipular a opinião pública com histórias grotescas, apresentando a FNLA como um grupo bárbaro que “comia pessoas”. O absurdo tornou-se propaganda eficaz num país traumatizado pela guerra e pela fome. E o mais triste é que muitos angolanos acreditaram. A manipulação funcionou porque o povo, cansado e mal informado, aceitou como verdade aquilo que o poder político quis que fosse verdade.
Hoje, ironicamente, há antigos membros do próprio MPLA que admitem publicamente que foi o regime quem criou e alimentou essas falsas narrativas — chegando mesmo a encenar atrocidades, filmar e culpar a FNLA para desacreditá-la completamente. Mas já é tarde demais. A história já foi escrita, e a FNLA já foi apagada do imaginário nacional.
A extinção política da FNLA será mais do que o desaparecimento de um partido. Será o fim simbólico de uma parte da história de Angola que, embora cheia de erros e contradições, representou o sonho de liberdade de milhares de homens e mulheres. O problema é que o país não parece preocupado em preservar essa memória.
O que virá depois é previsível: as siglas históricas vão morrendo, os líderes carismáticos desaparecem e os partidos transformam-se em clubes pessoais, sem alma nem ideologia. E Angola continua, prisioneira do seu próprio passado, incapaz de se reinventar.
A FNLA morrerá em 2027 — mas a sua morte começou há muito tempo, quando deixou de falar com o povo, quando se deixou dividir e quando permitiu que outros escrevessem a sua história por ela.
E, no fundo, talvez esse seja o maior drama de Angola: não é o fim dos partidos, é o fim da memória.
Birmingham, 10 de outubro de 2025.
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