Em Angola, todas as empresas públicas têm algo em comum: não geram lucros. O que deveria ser motor de desenvolvimento económico e social tornou-se um poço sem fundo, onde se acumulam dívidas, ineficiência e falta de transparência. O mais grave é que, em vez de se assumirem como instrumentos estratégicos para o bem comum, estas empresas transformaram-se em símbolos de prestígio político, vitrinas de poder sem qualquer responsabilidade perante os cidadãos.
Malundo Kudiqueba
Não há prestação de contas. Não há relatórios públicos claros. Não há auditorias independentes que permitam ao povo, verdadeiro dono destas instituições, saber como o seu dinheiro está a ser gasto. A opacidade reina, e com ela o desperdício. A gestão pública em Angola parece confundir-se com o feudo privado de elites que se servem do Estado em vez de o servir.
As empresas públicas deveriam ser pilares da economia nacional. São elas que, em muitos países, garantem sectores estratégicos como energia, transportes, telecomunicações ou recursos naturais. Em Angola, infelizmente, essas mesmas empresas funcionam como máquinas de empregar militantes, familiares e amigos próximos de quem governa. A meritocracia é substituída pela lealdade política, e a competência pela obediência. O resultado é previsível: má gestão, corrupção e falência.
Tomemos exemplos práticos. Empresas ligadas ao sector petrolífero, que em qualquer outra parte do mundo seriam altamente rentáveis, em Angola acumulam dívidas astronómicas e necessitam constantemente de resgates financeiros do Estado. As companhias de aviação, que poderiam ser a porta de entrada para o turismo e para o comércio internacional, sobrevivem com dificuldade, oferecendo mais escândalos do que voos. Até as empresas de transporte público urbano, em vez de aliviar a vida das populações, são conhecidas pelos atrasos, pela falta de manutenção e pela total ausência de planeamento estratégico.
Um país rico em recursos naturais, mas cujas empresas estatais empobrecem o povo. Angola vive num ciclo vicioso em que as receitas públicas são constantemente desviadas para tapar buracos de má gestão. É o dinheiro que deveria ir para escolas, hospitais e infraestruturas básicas que acaba a sustentar estruturas falidas, mas politicamente intocáveis.
Enquanto isso, a narrativa oficial insiste em falar de “prestígio”. Como se a existência destas empresas, por si só, fosse motivo de orgulho. Mas que prestígio pode haver numa companhia que não gera lucros, não presta contas e não serve o povo? Prestígio sem resultados é vaidade. E vaidade financiada com o dinheiro público é, no mínimo, uma forma sofisticada de insulto ao cidadão.
O Estado angolano não precisa de empresas públicas que funcionem como símbolos de status para quem governa. Precisa de empresas eficientes, transparentes e produtivas, que criem valor e contribuam para o crescimento económico. O caminho é claro: transparência na gestão, auditorias regulares, responsabilização de gestores e, quando necessário, privatização responsável de sectores onde a presença estatal já não se justifica.
Manter empresas públicas apenas pelo “prestígio” é perpetuar um luxo que o povo angolano não pode pagar. O verdadeiro prestígio não está em ter empresas públicas para exibir, mas em ter serviços públicos que funcionam, resultados que se veem e contas que se prestam.
Birmingham, 04 de Outubro de 2025.
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