Por que razão tantos homens portugueses matam as suas companheiras ou ex-companheiras? A questão é dura, mas inevitável, porque já não se trata de episódios isolados: é um padrão social e psicológico que insiste em marcar a realidade nacional.
Carla Nunes & Malundo Kudiqueba
O perfil do agressor raramente corresponde ao do “monstro” imaginado. Muitas vezes, trata-se de um homem aparentemente normal, trabalhador, com vida social e até respeitado na comunidade. É precisamente essa normalidade aparente que torna o problema mais inquietante. O que está em causa não é apenas um acto de violência súbita, mas um conjunto de traços psicológicos e culturais sedimentados ao longo da vida.
Grande parte destes homens revela uma incapacidade profunda de lidar com a rejeição. O fim da relação é interpretado como uma humilhação pessoal, um ataque directo à sua identidade. A mulher deixa de ser vista como sujeito livre para se tornar “propriedade” cuja perda é insuportável. É neste terreno que germina o feminicídio: na obsessão pela posse e no desejo de recuperar, pela força, um poder que sentem ter perdido.
Portugal, apesar dos avanços sociais, continua a carregar uma herança de machismo estrutural. Muitos homens cresceram num ambiente em que a autoridade masculina não era questionada. Quando essa ideia colide com mulheres independentes, autónomas e capazes de decidir por si, instala-se o choque. A fragilidade da masculinidade revela-se então em actos de violência extrema.
Diversos estudos apontam para traços recorrentes entre os agressores:
- Baixa tolerância à frustração.
- Sentimento de posse em relação à parceira.
- Incapacidade de gerir emoções negativas (raiva, ciúme, insegurança).
- Tendência para justificar a violência como “legítima defesa” do orgulho masculino.
- Muitas vezes, historial de violência na infância ou em relações anteriores.
Reduzir estes crimes a “dramas passionais” é uma forma perigosa de desresponsabilizar a sociedade. O problema não reside apenas no indivíduo, mas também num contexto que ainda normaliza o controlo masculino sobre a mulher e que continua a falhar na educação emocional dos rapazes.
O desafio não está apenas na punição, mas sobretudo na prevenção. É urgente investir na educação para a igualdade de género desde cedo, promover uma masculinidade saudável e disponibilizar acompanhamento psicológico para homens em risco de se tornarem agressores. Compreender o perfil psicológico do homem português violento não é desculpá-lo, mas sim abrir caminho para quebrar o ciclo da violência.
Enquanto não forem atacadas as raízes culturais e psicológicas do problema, Portugal continuará a multiplicar vítimas inocentes — mulheres assassinadas não por amor, mas pela incapacidade doentia de alguns homens aceitarem a liberdade delas.
Birmingham, 22 de setembro de 2025.
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