Em Angola, a pobreza não nasceu do acaso, nem da preguiça do povo, como alguns discursos arrogantes tentam insinuar. A pobreza foi construída, tijolo por tijolo, pela ganância de uma elite que decidiu confundir o erário público com a sua conta bancária. Os maiores inimigos dos pobres angolanos não são a seca, nem a falta de petróleo, nem tão-pouco a ausência de talento do povo. Os maiores inimigos dos pobres angolanos são, ironicamente, os próprios ricos do país.
Malundo Kudiqueba
Sim, os ricos — aqueles que roubaram o dinheiro público, desviaram milhões para paraísos fiscais e transformaram a riqueza colectiva em fortunas privadas. Para esta elite, quanto mais miseráveis e desesperados forem os angolanos, melhor. A pobreza massiva garante-lhes poder, submissão e silêncio. Um povo faminto não protesta. Um povo com fome não faz revolução.
Mas em Angola há um fenómeno ainda mais perverso: os ricos angolanos são talvez os únicos ricos do mundo que sentem inveja dos pobres. Não suportam ver um pobre que, com esforço, constrói uma vida simples mas digna. Incomodam-se com a alegria de uma família que, mesmo com pouco, celebra pequenas vitórias. É uma inveja do espírito, do carácter e da resistência do povo.
Estes “ricos” não são exemplo de empreendedorismo ou inovação. São produto de um sistema corrupto, alimentado pelo saque, pelo nepotismo e pela mentira. A sua fortuna não é mérito, é roubo. E o mais trágico é que, para manter o seu luxo obsceno, precisam que o país continue atolado na miséria.
Enquanto isso, os pobres são obrigados a reinventar a sobrevivência todos os dias. Criam, partilham, resistem. No fundo, os verdadeiros ricos de Angola não são os que ostentam iates em Lisboa ou condomínios em Dubai. Os verdadeiros ricos são os pobres que, sem nada, ainda guardam dignidade, esperança e humanidade.
Por outro lado, o pobre angolano não apenas aceita esta realidade, como muitas vezes a alimenta. Admira, idolatra e até bajula o rico angolano, como se este fosse um ser superior. É um paradoxo cruel: o maior fã do rico é precisamente o pobre que ele humilha. É aquele que sofre com a falta de escolas, hospitais e empregos, mas que ainda assim se deslumbra diante do carro de luxo ou do colar de diamantes exibido pelo seu opressor.
Essa idolatria cega transforma-se num círculo vicioso: quanto mais o pobre venera o rico, mais poder este tem para continuar a explorar e humilhar. E assim, a injustiça perpetua-se, não apenas pela força da corrupção, mas também pelo silêncio e pela veneração dos que mais sofrem com ela.
Birmingham, 19 de Agosto de 2025
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