Malundo Kudiqueba
Num gesto inesperado, mas carregado de simbolismo diplomático, o Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, declarou-se disponível para mediar a crescente crise diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos. A proposta, vinda de um líder de um país frequentemente subestimado nas arenas internacionais, é, ao mesmo tempo, ousada e reveladora de uma nova ambição africana no xadrez global.
A tensão entre Brasília e Washington escalou nos últimos dias após os Estados Unidos imporem sanções contra o juiz Alexandre de Moraes, figura central no Supremo Tribunal Federal brasileiro, acusado por sectores conservadores internacionais de abusos de poder e censura. Como se não bastasse, a administração norte-americana aplicou tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, reacendendo velhas feridas comerciais e geopolíticas.
Embaló, que preside actualmente à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), lembrou com firmeza:
“Não há Estado pequeno na diplomacia.”
E tem razão. O peso de um país não se mede apenas pelo PIB, mas pela sua coragem em agir quando os grandes se confrontam. Embaló afirma estar em contacto directo com o Presidente Lula da Silva e com autoridades norte-americanas, colocando-se como ponte entre dois mundos e defendendo o diálogo como único caminho possível.
Esta iniciativa coloca a Guiné-Bissau sob os holofotes — não como mero espectador da cena internacional, mas como ator disposto a intervir construtivamente num conflito entre potências. Num tempo em que a África muitas vezes é vista apenas como palco de disputas externas, Embaló vira o tabuleiro e assume um papel central.
Claro que a proposta pode ser vista com cepticismo. Alguns dirão que é ingenuidade política, ou puro exibicionismo diplomático. Mas, num mundo cansado de arrogância imperial e de guerras de egos, talvez a humildade de um pequeno país seja precisamente aquilo que falta nas grandes mesas de negociação.
O gesto de Embaló serve também de lembrete à CPLP: ser comunidade não é apenas partilhar a língua, mas actuar como família política e diplomática nos momentos críticos. E se o Brasil, potência regional e membro influente do Sul Global, sente-se injustiçado, faz sentido que um aliado da lusofonia se levante em seu apoio — mesmo que isso signifique tentar acalmar o gigante norte-americano.
No fim das contas, talvez o mundo precise mais de diplomatas improváveis do que de guerreiros previsíveis. E, quem sabe, Umaro Sissoco Embaló esteja a ensinar uma lição: não se trata de ser grande no mapa, mas de ser grande no momento certo.
Rotterdam, 02/08/202025
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